Silêncio. Ouve-se apenas um coração batendo. Mãe e filha estão abraçadas no canto de uma sala branca – a consciência da criança.
MÃE
Ai, estou tão ansiosa! Não deve faltar muito pra você chegar… Já tá na hora, né? Agora vamos passear. Vou com uma roupa bem bonita, na hora quero estar arrumadinha pra você!
(pausa) Você está tão quietinha… Não se mexe desde ontem… não assusta a mãe, não, viu!
(para o pai) Olha, avisa minha mãe que a mala está preparada em cima da cômoda… algo me diz que de hoje não passa.
PAI (apenas a voz)
Não se preocupe, já avisei. Agora vamos, tão esperando a gente.
Ouve-se o barulho de uma porta se fechando e sendo trancada. (Pausa)
MÃE
Ai… to sentindo… acho que vamos ter que mudar nossos planos, amor.
A criança se levanta e começa a caminhar para longe da mãe, em direção a um novo foco de luz. Surgem dois espíritos de formas femininas ladeando o bebê.
ANJO PROTETOR
Chegou a hora. Está vendo aquela luz? É o mundo. É para lá que tu vais.
O OUTRO
Mas cuidado, que lá a coisa muda.
CRIANÇA
Muda como?
O OUTRO
Lá não é quentinho, muito menos aconchegante. Aqui é seguro, lá não.
ANJO
Mas lá aprenderás coisas novas, vais poder interagir com outras pessoas que têm o mesmo objetivo que ti.
A mãe começa a respirar intensamente, preparando-se para o trabalho de parto.
CRIANÇA
Vai doer?
O OUTRO
Sempre dói. E vai doer para sempre.
ANJO
A dor é parte do caminho, mas não é o mais importante. Ela sempre resulta em crescimento e te deixa mais forte. E se ficas mais forte, sentes menos dor.
O OUTRO
Mas sempre haverá uma dor maior que a anterior. E você vai sofrer. Ninguém lá fora é bonzinho como sua mãe. Não demora e você já vai perceber isso. A violência começa logo de cara: o primeiro momento é cheio de sangue, tapas e choro.
CRIANÇA
Ai… eu não quero ir pra lá!
ANJO
Não te preocupas. O sangue que vais ver é o que te manterá viva, o que te liga a teus pais durante toda essa viagem que começa agora.
O tapa que virá daqui a pouco vai te ajudar a respirar, porque lá fora tua mãe não vai poder te dar o ar. E isso é bom! É aí que você começa a ter tua própria força.
CRIANÇA
E o choro? Já to sentindo minha mãe chorando…
ANJO
As lágrimas? São de alegria! Teus pais estão te esperando há muito tempo, estão muito ansiosos, querem tê-la ao alcance dos braços.
O OUTRO
Para lhe dar ordens e comandar sua vida…
ANJO
Para te guiar e te ajudar no começo da caminhada, até que você consiga andar com tuas próprias pernas.
O OUTRO
Mesmo quando isso acontecer, eles vão continuar lhe dando ordens e comandando sua vida. Ou talvez te larguem e esqueçam que é filha deles, ou talvez nem se importem. E se agora você for só o brinquedo favorito? E quando deixar de ser?
ANJO
Toda dúvida é válida, mas não deixes que conjecturas te amedrontem e comandem a vida que começa agora. Saiba que neste momento tua mãe te alimentará e te protegerá, e vai se esforçar para que continues tão bem quanto estava aqui. E quanto ao que quer que aconteça depois, saiba que não encontrarás desafio nenhum que não possas suplantar.
CRIANÇA
Puxa… será que eu vou conseguir passar por isso? Parece tão difícil…
O OUTRO
Se prepara…
ANJO
(cortando o Outro) Acredita que sim. Agora vai, que está na hora. Estarei contigo, mesmo que não me vejas, mesmo que me esqueças. E quando precisares de mim, saibas que não te deixarei sozinha.
O OUTRO
Eu também estarei com você, para que você nunca se esqueça dos problemas do mundo. Você precisa tanto de mim quanto dela; sem uma de nós duas não há equilíbrio, e sem equilíbrio sua viagem não terá sentido.
O bebê finalmente chega ao foco de luz.
CRIANÇA
E agora… eu sou?
Obs.: Este texto foi apresentado no EPA – XVII Encontro de Artes da Escola Superior de Artes Célia Helena, em 24 de outubro de 2009. A ficha técnica da apresentação encontra-se aqui.