Avenida Q em São Paulo

2 11 2009

Avenida QNo último mês de julho, fiz uma apresentação lá no Souza Lima com várias cenas de musicais, como Les Misérables, Legally Blonde, Ópera do Malandro e Avenida Q. Na época, este último estava em cartaz no Rio. Claro que, quando veio pra Sampa, eu fiquei muito ansioso para ver – e eis que, na sexta passada, que eu achava ser do último fim de semana desta peça em cartaz, lá fui eu ao Teatro Procópio Ferreira assistir.

Altas expectativas para o musical dos bonecos. Tão altas que nem eu achava que iam ser satisfeitas. Mas me enganei: foi uma das melhores peças que já tive a oportunidade de ver! São tantas coisas para comentar que vou separando por tópicos, pra nós nos entendermos:

Local

Construído em 1948, o teatro fica ali na Rua Augusta, entre a Oscar Freire e a Estados Unidos. É bem amplo, ainda que não seja gigantesco (são 670 cadeiras meio puídas, mas ainda assim confortáveis), e conta com uma ótima acústica e um belo e moderno foyer, com um bar bem no meio.

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e o protagonista Princeton (André Dias)

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e o protagonista Princeton (André Dias)

Produção

Comecemos pelos figurinos: por mais que os personagens humanos tenham trajes bem interessantes e característicos, o que mais chama a atenção são mesmo os bonecos. E sim, alguns deles têm mais de um figurino, entre pijamas e roupas de gala – isso quando não aparecem nus! Pois é, pra quem nunca ouviu falar da peça, vale dizer: trata-se de uma espécie de Vila Sésamo com temática adulta, com direito a palavrões, discussões sociológicas e até cenas de sexo entre muppets.

O cenário, em alguns momentos bem abrasileirado (isso porque trata-se de uma versão de um musical da Broadway), conta com alguns “acessórios” bem bacanas, como o par de camas do apartamento de Rod e Nicky (numa cena que é interessantemente vista “de cima”) e o Empire State Building que aparece em certa altura da encenação.

O som dos atores/cantores e da banda, que toca escondida, mas ao vivo, é muito bem equalizado e sai das caixas com excelente qualidade – tanto em termos de áudio quanto de execução.

Minha única ressalva neste tópico é quanto a cobrarem pelo programa do espetáculo. Ok, o papel é bom, tem verniz e tudo, foi caro fazer, mas cobrar R$ 10 à parte por algo que complementa a peça é um exagero.

Texto

Escrito originalmente por Robert Lopez e Jeff Marx (letras e música), o texto ao mesmo tempo bem-humorado e “agressivo” (porque nos faz pensar na lógica da sociedade em que vivemos) foi excelentemente traduzido por Claudio Botelho nesta versão tupiniquim. A grande sacada foi manter a tradução levemente aberta, o que permite contextualizar algumas piadas de acordo com o local da apresentação (como quando um personagem gay convida outro para ir ao Shopping Frei Caneca, conhecido em SP por ser bastante frequentado por homossexuais; na montagem carioca o local citado era outro).

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e Nicky (Fred Silveira)

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e Nicky (Fred Silveira)

Atores

É aqui que a peça brilha. O texto é excelente, a produção é esmerada, os músicos são altamente gabaritados, mas o elenco de Avenida Q é o que realmente faz a peça valer a pena. Todos os que pilotam bonecos conseguem fazê-los andar com naturalidade, ter trejeitos e vozes características (e cantar com elas), além de utilizarem suas próprias expressões faciais como um complemento para as dos bonecos. É incrível como alguns dos atores controlam (e falam por) mais de um boneco – com surpreendentes momentos como, por exemplo, quando Sabrina Korgut, que faz Kate Monstra e Lucy de Vassa, está escondida dentro do casarão do cenário com o boneco de Kate, enquanto Renata Ricci encontra-se no palco controlando Lucy, e mesmo assim ouvimos, em sincronia perfeita, Sabrina falando por Lucy. O que mostra quanto trabalho esses fantásticos atores tiveram ensaiando antes de estrearem.

No dia em que fui assistir à peça, os três personagens humanos foram vividos pelos stand-ins. Minha única ressalva fica por conta de Carll Santos, que, ainda que bom ator, parecia não estar muito presente nas cenas, muitas vezes exagerando movimentos, e em outras com o olhar aparentemente distraído e distante. Mas nada que comprometesse seu Gary Coleman no contexto geral.

***

Avenida Q continua em cartaz, diferentemente do que eu esperava, até 13/12. Então, você ainda tem pouco mais de um mês para ver (ou rever) esse fantástico musical, extremamente divertido e cativante. Aproveite a campanha Vá ao Teatro para comprar o ingresso por R$ 5 (é, cincão, acho que sentando nas laterais) ou pague R$ 80 (inteira) para escolher um lugar mais centralizado. Só não deixe passar a oportunidade.

Ficha técnica aqui. E um videozinho de aperitivo:





Luz

24 10 2009

Silêncio. Ouve-se apenas um coração batendo. Mãe e filha estão abraçadas no canto de uma sala branca – a consciência da criança.

MÃE
Ai, estou tão ansiosa! Não deve faltar muito pra você chegar… Já tá na hora, né? Agora vamos passear. Vou com uma roupa bem bonita, na hora quero estar arrumadinha pra você!

(pausa) Você está tão quietinha… Não se mexe desde ontem… não assusta a mãe, não, viu!

(para o pai) Olha, avisa minha mãe que a mala está preparada em cima da cômoda… algo me diz que de hoje não passa.

PAI (apenas a voz)
Não se preocupe, já avisei. Agora vamos, tão esperando a gente.

Ouve-se o barulho de uma porta se fechando e sendo trancada. (Pausa)

MÃE
Ai… to sentindo… acho que vamos ter que mudar nossos planos, amor.

A criança se levanta e começa a caminhar para longe da mãe, em direção a um novo foco de luz. Surgem dois espíritos de formas femininas ladeando o bebê.

ANJO PROTETOR
Chegou a hora. Está vendo aquela luz? É o mundo. É para lá que tu vais.

O OUTRO
Mas cuidado, que lá a coisa muda.

CRIANÇA
Muda como?

O OUTRO
Lá não é quentinho, muito menos aconchegante. Aqui é seguro, lá não.

ANJO
Mas lá aprenderás coisas novas, vais poder interagir com outras pessoas que têm o mesmo objetivo que ti.

A mãe começa a respirar intensamente, preparando-se para o trabalho de parto.

CRIANÇA
Vai doer?

O OUTRO
Sempre dói. E vai doer para sempre.

ANJO
A dor é parte do caminho, mas não é o mais importante. Ela sempre resulta em crescimento e te deixa mais forte. E se ficas mais forte, sentes menos dor.

O OUTRO
Mas sempre haverá uma dor maior que a anterior. E você vai sofrer. Ninguém lá fora é bonzinho como sua mãe. Não demora e você já vai perceber isso. A violência começa logo de cara: o primeiro momento é cheio de sangue, tapas e choro.

CRIANÇA
Ai… eu não quero ir pra lá!

ANJO
Não te preocupas. O sangue que vais ver é o que te manterá viva, o que te liga a teus pais durante toda essa viagem que começa agora.

O tapa que virá daqui a pouco vai te ajudar a respirar, porque lá fora tua mãe não vai poder te dar o ar. E isso é bom! É aí que você começa a ter tua própria força.

CRIANÇA
E o choro? Já to sentindo minha mãe chorando…

ANJO
As lágrimas? São de alegria! Teus pais estão te esperando há muito tempo, estão muito ansiosos, querem tê-la ao alcance dos braços.

O OUTRO
Para lhe dar ordens e comandar sua vida…

ANJO
Para te guiar e te ajudar no começo da caminhada, até que você consiga andar com tuas próprias pernas.

O OUTRO
Mesmo quando isso acontecer, eles vão continuar lhe dando ordens e comandando sua vida. Ou talvez te larguem e esqueçam que é filha deles, ou talvez nem se importem. E se agora você for só o brinquedo favorito? E quando deixar de ser?

ANJO
Toda dúvida é válida, mas não deixes que conjecturas te amedrontem e comandem a vida que começa agora. Saiba que neste momento tua mãe te alimentará e te protegerá, e vai se esforçar para que continues tão bem quanto estava aqui. E quanto ao que quer que aconteça depois, saiba que não encontrarás desafio nenhum que não possas suplantar.

CRIANÇA
Puxa… será que eu vou conseguir passar por isso? Parece tão difícil…

O OUTRO
Se prepara…

ANJO
(cortando o Outro) Acredita que sim. Agora vai, que está na hora. Estarei contigo, mesmo que não me vejas, mesmo que me esqueças. E quando precisares de mim, saibas que não te deixarei sozinha.

O OUTRO
Eu também estarei com você, para que você nunca se esqueça dos problemas do mundo. Você precisa tanto de mim quanto dela; sem uma de nós duas não há equilíbrio, e sem equilíbrio sua viagem não terá sentido.

O bebê finalmente chega ao foco de luz.

CRIANÇA
E agora… eu sou?

Obs.: Este texto foi apresentado no EPA – XVII Encontro de Artes da Escola Superior de Artes Célia Helena, em 24 de outubro de 2009. A ficha técnica da apresentação encontra-se aqui.





Apresentação no Célia Helena

23 10 2009

Ok, esse post é curto e é só pra divulgação.

Amanhã tenho apresentação de uma cena no Célia Helena! (com trilha sonora ao vivo!)

Dia: Sábado, 24/10
Horários: 19h e 19h15
End.: Av. São Gabriel, 462 (é uma casa cor de creme, não tem placa na porta)

Direção: Jurema Mensório
Texto: Thiago Schiefer
Elenco: Amanda Mesquita, Taiane Monteiro, Jurema Mensório, André Durbano
Luz: Victor Fernandes
Trilha sonora: Luana Helena Coelho e Thiago Schiefer

Quem puder, apareça!

Obs.: Amanhã ou depois eu publico o texto que escrevi para essa cena aqui no blog :)





A volta

7 10 2009

Seis de outubro, hora de sair do trabalho. Andei o mais depressa possível até o trem, depois pro metrô e do metrô pra casa. O caminho de todos os dias parecia mais longo, mas quanto mais eu me aproximava do lar, menos conseguia esconder o sorriso que teimava em sair rosto afora.

Por mais que morar sozinho por duas semanas tenha sido legal, tenha me permitido experimentar um novo nível de liberdade e uma pitada a mais de responsabilidade, nada pode se comparar ao momento em que cheguei em casa ontem e dei de cara com minha melhor amiga, que por um feliz arranjo divino foi também quem me entregou à luz do mundo, após o maior hiato de nossas vidas até hoje. Bem vinda de volta!





Os prós e contras de morar sozinho

28 09 2009

Café vazioBem, talvez esse título seja um pouco pretensioso e exagerado. Estou sozinho em casa há uma semana e ficarei mais uma, enquanto meus pais não voltarem de viagem. Mas é minha primeira experiência de viver “sozinho” e acho que vale alguns comentários.

Claro que, com a Dona Edênia indo em casa duas vezes por semana, tudo fica mais fácil: ela lava a roupa, limpa e arruma a casa, deixa a verdura lavada e o arroz pronto (bem como a soja e alguma carne). Então o “morar sozinho” é bem relativo; de novas obrigações, só lavar a louça mais vezes por semana, comprar umas coisinhas no mercado, pegar a correspondência e pagar uma ou outra conta que não tinha como programar o pagamento.

Acho que a grande diferença, pra mim, está sendo chegar da rua e nunca ter ninguém pra dizer oi ou contar como foi meu dia. E por outro lado, não ter que avisar ninguém que vou sair, para onde vou e que horas volto, e não deixar minha mãe preocupada porque o mundo lá fora é o cão, e o cão parece ficar maior conforme a noite vira madrugada.

Também dá mais vontade de sair de casa, ver a namorada e os amigos e ficar menos sozinho. Mas não deixa de ser bom de vez em quando ficar lá, acompanhado de meus pensamentos, organizando meu cérebro, colocando a música ou o som do filme num volume mais alto mesmo que sejam onze da noite (claro, nenhum exagero, porque os vizinhos também merecem paz).

No dia que eu for de fato morar sozinho, num lugar efetivamente meu, vou fazer a parte 2 deste post :)





La Musica

21 09 2009
Xuxa Lopes e Hélio Cícero, o casal de La Musica

Xuxa Lopes e Hélio Cícero, o casal de La Musica

Sábado à noite, eu e minha namorada íamos assistir à peça Alma Boa de Setsuan, no Tuca, em São Paulo. Chegando lá, demos de cara com uma baita multidão. Entramos na fila da bilheteria e o rapaz que a organizava falou que não haviam mais ingressos para a peça naquela noite, mas que ainda poderíamos conseguir um lugar para o espetáculo em cartaz ali do lado, no Tucarena. Apressados e em cima da hora, aceitamos a sugestão, e lá fomos nós assistir a La Musica.

Entramos logo após o segundo sinal. A música já começava a inserir o público num certo clima. Terceiro sinal, baixam as luzes e a ação tem início.

A peça é um diálogo entre as personagens Anne-Marie Roche e Michel Nollet, vividas respectivamente por Xuxa Lopes e pelo fantástico Hélio Cícero. Divorciados há cerca de três anos, o casal francês idealizado por Marguerite Duras em 1965 estivera completamente afastado até o reencontro inesperado no saguão de um hotel, cenário da apresentação. Ali, inicialmente muito constrangidos, eles voltam a se falar e aproveitam para ‘lavar a roupa suja’.

O texto trata de assuntos como adultério, ciúmes, casamento. Os longos e densos silêncios do início da peça são lentamente substituídos por discussões cada vez mais intensas, que tratam não apenas do passado de cada um e dos motivos que levaram ao fim do casamento, mas abrangendo questões mais profundas, como a manutenção da liberdade de cada metade do par mesmo após consumarem-se os sagrados votos. Liberdade que deveria permitir à mulher suas solitárias incursões ao cinema ou às corridas de cavalo, mas que provocam no marido um ciúmes imenso dela com… ela mesma.

O clima noir da Paris do século passado faz-se tanto pelos móveis e pelo papel de parede quanto pelas lâmpadas quentes que cercam o cenário, cobertas por luminárias características. A música, por outro lado, em nada remete à época em que se passa a ação. Outros elementos do design de som, como as falas de personagens que não estão presentes (que falariam via telefone ou escondidas atrás de móveis) e os sinos que parecem soar aleatoriamente ao longo da peça, deixam um tanto a desejar. Há de se destacar que, ao menos na noite em que assisti à peça, o som das gravações estava com o volume extremamente alto – algo desagradável, ainda que não comprometa a compreensão da obra.

Preciso fazer um parágrafo sobre a atuação de Hélio Cícero. Em minha há pouco iniciada incursão no mundo do teatro, é a segunda vez que tenho a oportunidade de assistir a uma peça com este grande ator; a primeira foi em O Fingidor, de Samir Yazbek, em que ele protagoniza Fernando Pessoa e seu heterônimo vivo, Jorge Madeira, criado para ser um datilógrafo simples e nada poeta. Vi, portanto, em duas peças, três personagens interpretadas por Cícero (tendo em vista que Jorge Madeira é Fernando Pessoa, mas tem suas próprias peculiaridades, e é, portanto, uma personagem vivida por outra personagem). E é incrível ver como este ator consegue, mesmo mantendo seu timbre de voz natural e seu falar pausado característico, representar papéis tão diametralmente opostos com a mesma alta qualidade. A face de comediante que vi na primeira peça é substituída aqui pela de um homem algo perturbado, incomodado com o fim de seu casamento, mas que parece refrear seus sentimentos até o último instante; um homem que segue sua vida com uma namorada, mas ainda guarda por sua ex-esposa, trancados no âmago, os mesmos sentimentos de outrora.

La Musica é uma boa peça, de curta duração (aprox. 1h), indicada para quem se interessa por conflitos de relacionamento. Um texto não exatamente leve, com algumas frases razoavelmente profundas, num espetáculo que vale mais para observar a performance dos atores do que pelo conteúdo em si.





História de uma banda

17 09 2009
Cowboyguy, o baixista da The Other Guys

Cowboyguy, o baixista imaginário da The Other Guys

O primeiro impulso partiu no começo deste milênio, lançado por alguns CDs de Stratovarius, Nightwish, Edguy e outras bandas de metal melódico. Naquela época, só um dos quatro caras sabia tocar um instrumento – mas isso não impediu que eles formassem uma banda. Criaram personagens engraçados, estabeleceram o que cada um iria tocar e bolaram um nome: The Other Guys – originado da imaginação de uma cena, a abertura de um show narrada por alguém que dizia “And now, with you, Stratovarius! But first, listen to these other guys” (ou, em português, “E agora, com vocês, Stratovarius! Mas antes, ouçam esses outros caras aí”). [Acabo de descobrir que existem outros grupos musicais com esse nome, The Other Guys... O.o]

Conceito criado, algumas músicas boladas, adição de um novo membro, invenções criativas para suprir a falta de um baixista (“Ah, o Pó pode fazer uma guitarra com um braço de baixo, aí ele toca os dois!”), mas o projeto nunca saiu do papel. Claro: até o momento em que se declarou seu fim, mais da metade da banda ainda não sabia tocar direito o próprio instrumento. Desistiram do grupo. Isso, no entanto, não impediu que os caras continuassem estudando.

O tal do batera encontrado no shopping

O tal do batera encontrado no shopping

Algum tempo passou, e dois dos membros originais resolveram retomar aquela ideia, fazendo algumas adaptações. Agora já conseguiam montar umas músicas (eles pensavam que estavam compondo) e tocar de maneira razoável. Acharam um segundo guitarrista no metrô (“olha, um cara com camiseta do Helloween! Ei, você toca alguma coisa?”) e recrutaram um baixista que haviam conhecido num fórum do Edguy. O baixista ficou pouco tempo. Mas essa nova formação precisava de um baterista, que foi encontrado de maneira semelhante ao guitarrista: voltando de um “ensaio”, passaram no Shopping Santa Cruz, em São Paulo, e viram um rapaz usando uma camiseta do Blind Guardian. “Oi! Você toca alguma coisa?” | “Ah, toco bateria” | “Nossa, justamente o que a gente precisava!” | “Ah, mas eu só toco há 1 mês!”

Não importava. Nascia ali a Lifestream (nome tirado de um RPG, Final Fantasy 7, predileto dos fundadores). Muitas músicas foram montadas, algumas foram compostas; ocorreram muitas mudanças de direcionamento (não sabiam se tocariam apenas músicas próprias, se misturariam covers, se seriam apenas cover de uma única banda); diversas mudanças de formação foram moldando as características daquele grupo de jovens. Passaram por ali três baixistas, três guitarristas, três bateristas (dos que permaneceram por mais tempo, já que inúmeros foram testados) e um vocalista/tecladista.

Sete anos se passaram sem um único show. No meio tempo, uma nova mudança de nome: Logic Reverse. Enfim, uma formação estável. Enfim, um show marcado, uma estreia em grande estilo num dos bares de rock mais bem conceituados da capital paulista. Em três meses, outro show num bar da mesma categoria, animado, para um público ínfimo, mas fiel. Terceiro show marcado, mas não executado.

Olha esse cabelo...

Olha esse cabelo...

Fim da banda. Fim de um sonho. Sete anos de planejamento, um imenso arquivo de músicas, algumas poucas gravações caseiras (é, viva a época das gravações digitais e dos home studios!), tudo esmigalhado por um punho de quatro dedos: stress, vestibular, compromissos com outras bandas, desentendimento entre dois membros.

Um ano se passou desde então. O stress foi aliviado, os gostos musicais mudaram, e três amigos resolveram retomar aquela ideia: os dois fundadores e aquele baterista do shopping. O brother lá do comecinho, que era o único que tocava alguma coisa quando surgiu The Other Guys, trabalha demais, mas quando sobra um tempo se junta com os outros três pra esmerilhar as teclas de seu Yamaha. Baixo? Pra quê, se a inventividade e o clima de brincadeira permitem que um dos vocalistas (é, “um dos”, porque no meio do caminho o outro fundador, guitarrista, começou a cantar) use seu keytar para doar graves ao som do trio?

Pegue uma base de rock, tempere com pitadas de metal e grunge (que também são rock, mas um tanto modificado), acrescente um quase nada de pop. Leve ao forno por 50min e decore com três ou quatro velinhas. O resultado é essa banda aí, que pretende se divertir sem pensar muito num futuro como profissional, e que daqui a pouco vai ter um novo nome.





O Cavaleiro da Fruta

8 09 2009

Terror. Tragédia. Violência. E muitas frutas para acompanhar.

É isso que te espera no próximo filme do Bátima, como você pode conferir pelo trailer acima. A nova aventura do Cavaleiro das Trevas, que lhe confere até mesmo um novo epíteto, promete mudar os rumos do herói no cinema e estabelecer novos padrões internacionais de texto e enredo.

Com estreia prometida para 10.10.2010, a produção (com time de dublagem brasileiro precocemente escalado) atiça desde já a curiosidade geral e causa euforia em todos, fãs ou não.

Não deixe de conferir.





O Tempo

30 08 2009

Tentativa de colocar o tempo numa imagemQuanto tempo dura um tempo? Qual o prazo para um conhecimento raso evoluir para um profundo? E por que é tão difícil abrir mão de seu próprio tempo em nome do alheio?

Talvez essas questões me perturbem porque sinto um enorme anseio em olhar através do impenetrável véu do futuro. Ver minhas necessidades e vontades satisfeitas no meu prazo, no meu próprio tempo. Mas o tempo da vida e o tempo das outras pessoas é diferente do tempo do meu pensamento. E essa ansiedade de ver o relógio correr mais rápido fere a alma pouco a pouco, como uma brasa a acariciar a pele, removendo-lhe camada após camada, rumo ao âmago.

Preciso aprender a beber na fonte da paciência. É ela que apaga a brasa e afaga a pele. É ela que permite às feridas curar-se, deixando as experiências mais resistentes, válidas, completas e, porque não, verdadeiras. Permite-lhes ir ao fundo mais fundo, onde brasa alguma pode chegar.

A letra abaixo é de uma música minha, versão em português (a original é em inglês), que fala um pouquinho disso. Se quiser escutá-la, basta acessar www.myspace.com/thiagoschiefer.

Frantic (ainda não tem nome em português)

Lívida em carmesim
Queima-me a alma sem fim
Pressão crescendo em mim
Pra vida andar mais depressa

Nervoso, conto as horas
Tento olhar o futuro
Quero correr o tempo
Rápido, acelerar!

Respira,
O amanhã não há como saber
Sinta a vida!
Deixe-a se mostrar a ti

Pressa
(Correr contra o mundo)
Ansiedade
(Ter que esperar)
ou calma
Devo esperar

Com minha alma a queimar
Ao que se tem a me dar
A pressão há de parar
Levando a vida na paz

Respirar enfim
O amanhã não há como saber
Sinta a vida!
Deixe-a se mostrar a ti

Pressa
(Correr contra o mundo)
Ansiedade
(Ter que esperar)
ou calma
Devo esperar





E Agora, Nora?

23 08 2009

E Agora, Nora?Inteligente e inteligível. Dois adjetivos absolutamente apropriados para qualificar a peça E Agora, Nora?, em cartaz na Casa Livre de sexta a domingo, às 21h, até 30 de agosto.

A peça é um estudo sobre Casa de Bonecas, do dramaturgo norueguês Henrik Johan Ibsen. Esta, escrita originalmente em 1879, trata da hipocrisia da instituição familiar e tem certo ar feminista, dado que a protagonista, Nora, mulher alienada e típica dona de casa, eventualmente apercebe-se de sua condição e decide sair de casa para encontrar a própria identidade. A Cia. Temporária de Investigação Cênica apresenta uma leitura bastante interessante de seu material de suporte.

Algo do clima da encenação já começa a se criar no momento da compra do ingresso, quando recebemos a ficha técnica do espetáculo num formato no maior estilo “Não Perturbe”. Ao entrarmos no espaço cênico, cadeiras pequeninas, como as de bonecas, circundam o local da ação e nos convidam a sentar. Nossa perspectiva das atrizes Joana Dória de Almeida (também diretora), Júlia Novaes e Sofia Boito é, portanto, de baixo para cima, o que engrandece as Noras à nossa frente.

A maçã e o processo de descobrimento (crédito: divulgação)

Após uma abertura musical cantada por uma dona de casa mascarada, algumas palavras surgem iluminadas na parede e inicia-se uma espécie de sistema de produção em série, no qual mulheres-padrão são fabricadas, com seus corpetes repressores e suas perucas artificiais. Ao fundo, o som robótico de mulheres a enumerar produtos que permeiam o viver típico feminino reforçam a ideia da produção em série. E elas lavam, passam, esperam o marido, e tudo parece lindo até que se morde a maçã de Eva – maçã do pecado ou do esclarecimento? E as Noras se deparam com portas e mais portas, a princípio trancadas, mas eventualmente abertas. Por qual seguir?

Elas se livram das amarras dos corpetes (e de sua posição social até então consolidada) e se entregam ao outro extremo, querendo ser homens, se vestindo como homens, fumando seus charutos e virando suas doses de cachaça… mas será isso que elas querem? Ocupar as mesmas posições dos homens e chutá-los de seus lugares? Cansam-se, e chegam ao lugar onde se encontra a mulher atualmente, mais livres que as mulheres de outrora, mais autônomas, mas com uma identidade de fato. E chegam a um desfecho de total exposição ao público, como mulheres com suas próprias histórias e sua autonomia. Como diz uma das atrizes, agora interpretando a si mesma: “meus pais me criaram para ser uma mulher ou para ser uma pessoa?”

Fábrica (crédito: divulgação)

Tudo nos é contado de forma fragmentária, ora pelo texto, ora pelo figurino (trocado constantemente em cena), ora pela iluminação bem sacada que nos direciona o olhar ou se combina com as palavras na parede oposta à entrada. Há até algumas coreografias (com direito a pole dance no início da peça), também bastante signficativas. Há uma linearidade cronológica, que mostra a evolução da mulher na sociedade, mas não cênica. Inúmeras metáforas, com destaque à tal maçã do esclarecimento (que eventualmente se torna um carregamento de maçãs alienantes-pseudo-informativas, a la revista feminina, entuchando Nora com novas “obrigações” e pressões sociais), enriquecem o linguajar da obra sem torná-la hermética, o que considero um resultado altamente satisfatório para o ponto de vista do espectador.

Meu ingresso no mundo do teatro me trouxe a necessidade de explorá-lo, e tenho visto muitas peças desde que fiz a opção por este caminho. Desde então, deparei-me com apresentações absolutamente mastigáveis (como a do musical A Bela e a Fera) e outras que me pareceram intencionar um eruditismo desmedido, típico dos “gênios auto-intitulados”, o que as tornava extremamente herméticas. O espetáculo da Cia. Temporária de Investigação Cênica foi o primeiro a que assisti que encontra o ponto de equilíbrio, permitindo uma ginástica cerebral sem comprometer a inteligibilidade da peça. Parabéns às meninas-mulheres!

Serviço

Local: R. Pirineus, 107 – Campos Elíseos – Centro
Fone: 3257-6652
Preço: R$ 20
Datas: até 30 de agosto de 2009
Horário: sexta a domingo, às 21h

Ficha técnica

Dramaturgia: Cia. Temporária de Investigação Cênica
Concepção e Direção: Joana Dória de Almeida
Elenco: Joana Dória de Almeida, Júlia Novaes e Sofia Boito
Assistente de Direção: Diogo Spinelli
Intervenções Poéticas (Samplers dramatúrgicos): Roberta Estrela D´Alva
Orientação: Cibele Forjaz
Desenho de Som: Pedro Semeghini
Desenho de Luz: Sofia Boito
Cenário e Figurinos: Cia. Temporária de Investigação Cênica
Vídeos: Carolina Mendonça e Fernanda Gomes