O cachorro na ponte

19 11 2009

O cachorro está na ponte

Procura comida, um abrigo, um dono

Balança o rabo e ninguém vê

Late e ninguém ouve

Olha para o lado e anda.

 

O cachorro está na ponte

Procura alimento, um amigo, um pai

Balança o rabo e ninguém escuta

Está cercado, mas sozinho

Caído, puído, mas vivo

 

Será que ele chora por dentro?

O cachorro olha para o horizonte

O cachorro admira o horizonte

Pra onde, cachorro, você vai agora?






A primeira audição

11 11 2009

A maioria de vocês já deve ter ouvido falar da estória d’O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, que conta como o dr. Henry Jekyll, numa tentativa fracassada de separar e isolar a essência maligna do ser humano, usando a si mesmo como cobaia, libertou de si um alter ego, Edward Hyde, uma terrível criatura assassina que era nada mais que todo seu “lado ruim” concentrado num único ser. O livro foi adaptado para o teatro na forma de um musical, Jekyll & Hyde, que estreou na Broadway em 28 de abril de 1997, no Plymouth Theatre. Doze anos depois, resolveram trazer esta excelente peça para os palcos tupiniquins.

Há cerca de um mês me inscrevi para as audições desse musical, através do site oficial. Preenchi uma ficha que incluía, entre outras coisas, meus trabalhos prévios em teatro/canto/dança e nível de experiência em cada uma dessas áreas; ali também precisei indicar para qual personagem gostaria de prestar. Minha escolha foi Spider (no vídeo acima, o cara que aparece aos 3′02″), cafetão de uma das personagens principais, Lucy – um papel pequeno que supus estar de acordo com minha pouca experiência nesse mundo do teatro.

Arte visual original do espetáculo, aqui empregada na capa do CD com o elenco original da Broadway

Domingo passado a produção me ligou para marcar a audição. Para mim isso já foi uma vitória, já que, creio, nem todos os inscritos são convidados para os testes (suponho que haja uma pré-seleção das fichas cadastradas pelo site). Mas fui pego de surpresa, já que a produção divulgou há menos de uma semana as músicas que poderiam ser cantadas nesta audição – acreditava que teria ao menos um mês para preparar as duas músicas que escolhi. Primeira lição: eles querem que você já esteja pronto no ato da inscrição, não que você se prepare nos momentos anteriores ao teste.

Bom, marcamos meu teste para esta terça. Ou seja, tive domingo à tarde e segunda-feira à noite para ficar “no ponto” para o teste (na segunda fui ajudado pela minha querida professora de canto, que arranjou um horário em cima da hora para fazermos uma aula). Isso sem contar a construção das personagens que cantam originalmente as músicas escolhidas, atividade que ocupava meu cérebro quase todo o tempo, totalizando aproximadamente 49 horas de preparação. E lá fui eu para meu primeiro teste de verdade – “de verdade” porque já tinha feito um numa aula do conservatório, com banca composta por algumas pessoas conhecidas do meio, como o Luciano Amaral (o Lucas Silva e Silva de O Mundo da Lua), a Jana Amorim (bailarina e cantora que participou d’A Bela e a Fera, musical que já resenhei por aqui) e o Ricardo Marques, mas foi uma “aula de como fazer audição”, não uma audição propriamente dita.

O teste aconteceu no Espaço 10×21, no bairro de Perdizes, São Paulo. Mal cheguei, fui avisado que nós, candidatos, cantaríamos a princípio apenas uma música (não duas, como pedido via e-mail), e que só cantaríamos a segunda se nos fosse pedido. Escolhi a que ensaiara mais no dia anterior e cuja tessitura condizia mais com o personagem para o qual estava prestando.

Chegada minha vez, entrei, combinei minha audição com o pianista, fui para a marca e esperei que me permitissem começar. Vale um parênteses aqui: é engraçado como fiquei muito mais nervoso antes de ir para o Espaço 10×21 do que quando estava em frente à banca. Enfim, perguntaram que música eu cantaria e logo comecei com a primeira parte do solo de Quasimodo em “Lá Fora” (essa aí embaixo, versão em português de “Out There”, do filme e do musical O Corunda de Notre Dame).

Foi tudo muito rápido. A música saiu com facilidade (graças, em parte, à excelente acústica do lugar), mas certamente meu nervoso era visível aos olhos daqueles experientes profissionais, e minha pouca experiência como ator era evidenciada pela timidez dos gestos que acompanharam minha voz. Acabou a música, o diretor agradeceu com um leve sorriso e eu me retirei. Sem segunda canção nem nada.

Ficou bastante claro que não ganharei um papel. Sempre ouvi dizer, e sempre me pareceu muito crível, que quando uma banca de audição gosta de você ou acha que você se encaixa no perfil que procuram, pedem que você ou cante completa a música cujo trecho escolheu, ou que cante sua segunda opção, e se realmente gostarem do que foi mostrado lhe dão algumas indicações sobre a segunda fase de testes (ou callback). Que fique claro: não fui maltratado, ninguém ali se comportou de maneira rude – muito pelo contrário, fui recebido com simpatia -, mas creio que estavam todos cansados e sem tempo para bater papo.

De qualquer forma, me sinto bem. Meu objetivo maior desta vez era uma espécie de reconhecimento de terreno,  saber como é a audição para um grande espetáculo. Qualquer coisa além disso teria sido um grande lucro. Não tive receio de me “queimar” com o diretor porque acredito já ter uma voz suficientemente preparada para não ser visto como um “aventureiro sem noção”. E consegui o que queria: experiência para ir melhor nas próximas tentativas, nas quais já terei mais conhecimento e prática como ator e como cantor para poder pleitear, efetivamente, um bom papel numa montagem de bom porte.





Avenida Q em São Paulo

2 11 2009

Avenida QNo último mês de julho, fiz uma apresentação lá no Souza Lima com várias cenas de musicais, como Les Misérables, Legally Blonde, Ópera do Malandro e Avenida Q. Na época, este último estava em cartaz no Rio. Claro que, quando veio pra Sampa, eu fiquei muito ansioso para ver – e eis que, na sexta passada, que eu achava ser do último fim de semana desta peça em cartaz, lá fui eu ao Teatro Procópio Ferreira assistir.

Altas expectativas para o musical dos bonecos. Tão altas que nem eu achava que iam ser satisfeitas. Mas me enganei: foi uma das melhores peças que já tive a oportunidade de ver! São tantas coisas para comentar que vou separando por tópicos, pra nós nos entendermos:

Local

Construído em 1948, o teatro fica ali na Rua Augusta, entre a Oscar Freire e a Estados Unidos. É bem amplo, ainda que não seja gigantesco (são 670 cadeiras meio puídas, mas ainda assim confortáveis), e conta com uma ótima acústica e um belo e moderno foyer, com um bar bem no meio.

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e o protagonista Princeton (André Dias)

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e o protagonista Princeton (André Dias)

Produção

Comecemos pelos figurinos: por mais que os personagens humanos tenham trajes bem interessantes e característicos, o que mais chama a atenção são mesmo os bonecos. E sim, alguns deles têm mais de um figurino, entre pijamas e roupas de gala – isso quando não aparecem nus! Pois é, pra quem nunca ouviu falar da peça, vale dizer: trata-se de uma espécie de Vila Sésamo com temática adulta, com direito a palavrões, discussões sociológicas e até cenas de sexo entre muppets.

O cenário, em alguns momentos bem abrasileirado (isso porque trata-se de uma versão de um musical da Broadway), conta com alguns “acessórios” bem bacanas, como o par de camas do apartamento de Rod e Nicky (numa cena que é interessantemente vista “de cima”) e o Empire State Building que aparece em certa altura da encenação.

O som dos atores/cantores e da banda, que toca escondida, mas ao vivo, é muito bem equalizado e sai das caixas com excelente qualidade – tanto em termos de áudio quanto de execução.

Minha única ressalva neste tópico é quanto a cobrarem pelo programa do espetáculo. Ok, o papel é bom, tem verniz e tudo, foi caro fazer, mas cobrar R$ 10 à parte por algo que complementa a peça é um exagero.

Texto

Escrito originalmente por Robert Lopez e Jeff Marx (letras e música), o texto ao mesmo tempo bem-humorado e “agressivo” (porque nos faz pensar na lógica da sociedade em que vivemos) foi excelentemente traduzido por Claudio Botelho nesta versão tupiniquim. A grande sacada foi manter a tradução levemente aberta, o que permite contextualizar algumas piadas de acordo com o local da apresentação (como quando um personagem gay convida outro para ir ao Shopping Frei Caneca, conhecido em SP por ser bastante frequentado por homossexuais; na montagem carioca o local citado era outro).

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e Nicky (Fred Silveira)

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e Nicky (Fred Silveira)

Atores

É aqui que a peça brilha. O texto é excelente, a produção é esmerada, os músicos são altamente gabaritados, mas o elenco de Avenida Q é o que realmente faz a peça valer a pena. Todos os que pilotam bonecos conseguem fazê-los andar com naturalidade, ter trejeitos e vozes características (e cantar com elas), além de utilizarem suas próprias expressões faciais como um complemento para as dos bonecos. É incrível como alguns dos atores controlam (e falam por) mais de um boneco – com surpreendentes momentos como, por exemplo, quando Sabrina Korgut, que faz Kate Monstra e Lucy de Vassa, está escondida dentro do casarão do cenário com o boneco de Kate, enquanto Renata Ricci encontra-se no palco controlando Lucy, e mesmo assim ouvimos, em sincronia perfeita, Sabrina falando por Lucy. O que mostra quanto trabalho esses fantásticos atores tiveram ensaiando antes de estrearem.

No dia em que fui assistir à peça, os três personagens humanos foram vividos pelos stand-ins. Minha única ressalva fica por conta de Carll Santos, que, ainda que bom ator, parecia não estar muito presente nas cenas, muitas vezes exagerando movimentos, e em outras com o olhar aparentemente distraído e distante. Mas nada que comprometesse seu Gary Coleman no contexto geral.

***

Avenida Q continua em cartaz, diferentemente do que eu esperava, até 13/12. Então, você ainda tem pouco mais de um mês para ver (ou rever) esse fantástico musical, extremamente divertido e cativante. Aproveite a campanha Vá ao Teatro para comprar o ingresso por R$ 5 (é, cincão, acho que sentando nas laterais) ou pague R$ 80 (inteira) para escolher um lugar mais centralizado. Só não deixe passar a oportunidade.

Ficha técnica aqui. E um videozinho de aperitivo:





Luz

24 10 2009

Silêncio. Ouve-se apenas um coração batendo. Mãe e filha estão abraçadas no canto de uma sala branca – a consciência da criança.

MÃE
Ai, estou tão ansiosa! Não deve faltar muito pra você chegar… Já tá na hora, né? Agora vamos passear. Vou com uma roupa bem bonita, na hora quero estar arrumadinha pra você!

(pausa) Você está tão quietinha… Não se mexe desde ontem… não assusta a mãe, não, viu!

(para o pai) Olha, avisa minha mãe que a mala está preparada em cima da cômoda… algo me diz que de hoje não passa.

PAI (apenas a voz)
Não se preocupe, já avisei. Agora vamos, tão esperando a gente.

Ouve-se o barulho de uma porta se fechando e sendo trancada. (Pausa)

MÃE
Ai… to sentindo… acho que vamos ter que mudar nossos planos, amor.

A criança se levanta e começa a caminhar para longe da mãe, em direção a um novo foco de luz. Surgem dois espíritos de formas femininas ladeando o bebê.

ANJO PROTETOR
Chegou a hora. Está vendo aquela luz? É o mundo. É para lá que tu vais.

O OUTRO
Mas cuidado, que lá a coisa muda.

CRIANÇA
Muda como?

O OUTRO
Lá não é quentinho, muito menos aconchegante. Aqui é seguro, lá não.

ANJO
Mas lá aprenderás coisas novas, vais poder interagir com outras pessoas que têm o mesmo objetivo que ti.

A mãe começa a respirar intensamente, preparando-se para o trabalho de parto.

CRIANÇA
Vai doer?

O OUTRO
Sempre dói. E vai doer para sempre.

ANJO
A dor é parte do caminho, mas não é o mais importante. Ela sempre resulta em crescimento e te deixa mais forte. E se ficas mais forte, sentes menos dor.

O OUTRO
Mas sempre haverá uma dor maior que a anterior. E você vai sofrer. Ninguém lá fora é bonzinho como sua mãe. Não demora e você já vai perceber isso. A violência começa logo de cara: o primeiro momento é cheio de sangue, tapas e choro.

CRIANÇA
Ai… eu não quero ir pra lá!

ANJO
Não te preocupas. O sangue que vais ver é o que te manterá viva, o que te liga a teus pais durante toda essa viagem que começa agora.

O tapa que virá daqui a pouco vai te ajudar a respirar, porque lá fora tua mãe não vai poder te dar o ar. E isso é bom! É aí que você começa a ter tua própria força.

CRIANÇA
E o choro? Já to sentindo minha mãe chorando…

ANJO
As lágrimas? São de alegria! Teus pais estão te esperando há muito tempo, estão muito ansiosos, querem tê-la ao alcance dos braços.

O OUTRO
Para lhe dar ordens e comandar sua vida…

ANJO
Para te guiar e te ajudar no começo da caminhada, até que você consiga andar com tuas próprias pernas.

O OUTRO
Mesmo quando isso acontecer, eles vão continuar lhe dando ordens e comandando sua vida. Ou talvez te larguem e esqueçam que é filha deles, ou talvez nem se importem. E se agora você for só o brinquedo favorito? E quando deixar de ser?

ANJO
Toda dúvida é válida, mas não deixes que conjecturas te amedrontem e comandem a vida que começa agora. Saiba que neste momento tua mãe te alimentará e te protegerá, e vai se esforçar para que continues tão bem quanto estava aqui. E quanto ao que quer que aconteça depois, saiba que não encontrarás desafio nenhum que não possas suplantar.

CRIANÇA
Puxa… será que eu vou conseguir passar por isso? Parece tão difícil…

O OUTRO
Se prepara…

ANJO
(cortando o Outro) Acredita que sim. Agora vai, que está na hora. Estarei contigo, mesmo que não me vejas, mesmo que me esqueças. E quando precisares de mim, saibas que não te deixarei sozinha.

O OUTRO
Eu também estarei com você, para que você nunca se esqueça dos problemas do mundo. Você precisa tanto de mim quanto dela; sem uma de nós duas não há equilíbrio, e sem equilíbrio sua viagem não terá sentido.

O bebê finalmente chega ao foco de luz.

CRIANÇA
E agora… eu sou?

Obs.: Este texto foi apresentado no EPA – XVII Encontro de Artes da Escola Superior de Artes Célia Helena, em 24 de outubro de 2009. A ficha técnica da apresentação encontra-se aqui.





Apresentação no Célia Helena

23 10 2009

Ok, esse post é curto e é só pra divulgação.

Amanhã tenho apresentação de uma cena no Célia Helena! (com trilha sonora ao vivo!)

Dia: Sábado, 24/10
Horários: 19h e 19h15
End.: Av. São Gabriel, 462 (é uma casa cor de creme, não tem placa na porta)

Direção: Jurema Mensório
Texto: Thiago Schiefer
Elenco: Amanda Mesquita, Taiane Monteiro, Jurema Mensório, André Durbano
Luz: Victor Fernandes
Trilha sonora: Luana Helena Coelho e Thiago Schiefer

Quem puder, apareça!

Obs.: Amanhã ou depois eu publico o texto que escrevi para essa cena aqui no blog :)





A volta

7 10 2009

Seis de outubro, hora de sair do trabalho. Andei o mais depressa possível até o trem, depois pro metrô e do metrô pra casa. O caminho de todos os dias parecia mais longo, mas quanto mais eu me aproximava do lar, menos conseguia esconder o sorriso que teimava em sair rosto afora.

Por mais que morar sozinho por duas semanas tenha sido legal, tenha me permitido experimentar um novo nível de liberdade e uma pitada a mais de responsabilidade, nada pode se comparar ao momento em que cheguei em casa ontem e dei de cara com minha melhor amiga, que por um feliz arranjo divino foi também quem me entregou à luz do mundo, após o maior hiato de nossas vidas até hoje. Bem vinda de volta!





Os prós e contras de morar sozinho

28 09 2009

Café vazioBem, talvez esse título seja um pouco pretensioso e exagerado. Estou sozinho em casa há uma semana e ficarei mais uma, enquanto meus pais não voltarem de viagem. Mas é minha primeira experiência de viver “sozinho” e acho que vale alguns comentários.

Claro que, com a Dona Edênia indo em casa duas vezes por semana, tudo fica mais fácil: ela lava a roupa, limpa e arruma a casa, deixa a verdura lavada e o arroz pronto (bem como a soja e alguma carne). Então o “morar sozinho” é bem relativo; de novas obrigações, só lavar a louça mais vezes por semana, comprar umas coisinhas no mercado, pegar a correspondência e pagar uma ou outra conta que não tinha como programar o pagamento.

Acho que a grande diferença, pra mim, está sendo chegar da rua e nunca ter ninguém pra dizer oi ou contar como foi meu dia. E por outro lado, não ter que avisar ninguém que vou sair, para onde vou e que horas volto, e não deixar minha mãe preocupada porque o mundo lá fora é o cão, e o cão parece ficar maior conforme a noite vira madrugada.

Também dá mais vontade de sair de casa, ver a namorada e os amigos e ficar menos sozinho. Mas não deixa de ser bom de vez em quando ficar lá, acompanhado de meus pensamentos, organizando meu cérebro, colocando a música ou o som do filme num volume mais alto mesmo que sejam onze da noite (claro, nenhum exagero, porque os vizinhos também merecem paz).

No dia que eu for de fato morar sozinho, num lugar efetivamente meu, vou fazer a parte 2 deste post :)





La Musica

21 09 2009
Xuxa Lopes e Hélio Cícero, o casal de La Musica

Xuxa Lopes e Hélio Cícero, o casal de La Musica

Sábado à noite, eu e minha namorada íamos assistir à peça Alma Boa de Setsuan, no Tuca, em São Paulo. Chegando lá, demos de cara com uma baita multidão. Entramos na fila da bilheteria e o rapaz que a organizava falou que não haviam mais ingressos para a peça naquela noite, mas que ainda poderíamos conseguir um lugar para o espetáculo em cartaz ali do lado, no Tucarena. Apressados e em cima da hora, aceitamos a sugestão, e lá fomos nós assistir a La Musica.

Entramos logo após o segundo sinal. A música já começava a inserir o público num certo clima. Terceiro sinal, baixam as luzes e a ação tem início.

A peça é um diálogo entre as personagens Anne-Marie Roche e Michel Nollet, vividas respectivamente por Xuxa Lopes e pelo fantástico Hélio Cícero. Divorciados há cerca de três anos, o casal francês idealizado por Marguerite Duras em 1965 estivera completamente afastado até o reencontro inesperado no saguão de um hotel, cenário da apresentação. Ali, inicialmente muito constrangidos, eles voltam a se falar e aproveitam para ‘lavar a roupa suja’.

O texto trata de assuntos como adultério, ciúmes, casamento. Os longos e densos silêncios do início da peça são lentamente substituídos por discussões cada vez mais intensas, que tratam não apenas do passado de cada um e dos motivos que levaram ao fim do casamento, mas abrangendo questões mais profundas, como a manutenção da liberdade de cada metade do par mesmo após consumarem-se os sagrados votos. Liberdade que deveria permitir à mulher suas solitárias incursões ao cinema ou às corridas de cavalo, mas que provocam no marido um ciúmes imenso dela com… ela mesma.

O clima noir da Paris do século passado faz-se tanto pelos móveis e pelo papel de parede quanto pelas lâmpadas quentes que cercam o cenário, cobertas por luminárias características. A música, por outro lado, em nada remete à época em que se passa a ação. Outros elementos do design de som, como as falas de personagens que não estão presentes (que falariam via telefone ou escondidas atrás de móveis) e os sinos que parecem soar aleatoriamente ao longo da peça, deixam um tanto a desejar. Há de se destacar que, ao menos na noite em que assisti à peça, o som das gravações estava com o volume extremamente alto – algo desagradável, ainda que não comprometa a compreensão da obra.

Preciso fazer um parágrafo sobre a atuação de Hélio Cícero. Em minha há pouco iniciada incursão no mundo do teatro, é a segunda vez que tenho a oportunidade de assistir a uma peça com este grande ator; a primeira foi em O Fingidor, de Samir Yazbek, em que ele protagoniza Fernando Pessoa e seu heterônimo vivo, Jorge Madeira, criado para ser um datilógrafo simples e nada poeta. Vi, portanto, em duas peças, três personagens interpretadas por Cícero (tendo em vista que Jorge Madeira é Fernando Pessoa, mas tem suas próprias peculiaridades, e é, portanto, uma personagem vivida por outra personagem). E é incrível ver como este ator consegue, mesmo mantendo seu timbre de voz natural e seu falar pausado característico, representar papéis tão diametralmente opostos com a mesma alta qualidade. A face de comediante que vi na primeira peça é substituída aqui pela de um homem algo perturbado, incomodado com o fim de seu casamento, mas que parece refrear seus sentimentos até o último instante; um homem que segue sua vida com uma namorada, mas ainda guarda por sua ex-esposa, trancados no âmago, os mesmos sentimentos de outrora.

La Musica é uma boa peça, de curta duração (aprox. 1h), indicada para quem se interessa por conflitos de relacionamento. Um texto não exatamente leve, com algumas frases razoavelmente profundas, num espetáculo que vale mais para observar a performance dos atores do que pelo conteúdo em si.





História de uma banda

17 09 2009
Cowboyguy, o baixista da The Other Guys

Cowboyguy, o baixista imaginário da The Other Guys

O primeiro impulso partiu no começo deste milênio, lançado por alguns CDs de Stratovarius, Nightwish, Edguy e outras bandas de metal melódico. Naquela época, só um dos quatro caras sabia tocar um instrumento – mas isso não impediu que eles formassem uma banda. Criaram personagens engraçados, estabeleceram o que cada um iria tocar e bolaram um nome: The Other Guys – originado da imaginação de uma cena, a abertura de um show narrada por alguém que dizia “And now, with you, Stratovarius! But first, listen to these other guys” (ou, em português, “E agora, com vocês, Stratovarius! Mas antes, ouçam esses outros caras aí”). [Acabo de descobrir que existem outros grupos musicais com esse nome, The Other Guys... O.o]

Conceito criado, algumas músicas boladas, adição de um novo membro, invenções criativas para suprir a falta de um baixista (“Ah, o Pó pode fazer uma guitarra com um braço de baixo, aí ele toca os dois!”), mas o projeto nunca saiu do papel. Claro: até o momento em que se declarou seu fim, mais da metade da banda ainda não sabia tocar direito o próprio instrumento. Desistiram do grupo. Isso, no entanto, não impediu que os caras continuassem estudando.

O tal do batera encontrado no shopping

O tal do batera encontrado no shopping

Algum tempo passou, e dois dos membros originais resolveram retomar aquela ideia, fazendo algumas adaptações. Agora já conseguiam montar umas músicas (eles pensavam que estavam compondo) e tocar de maneira razoável. Acharam um segundo guitarrista no metrô (“olha, um cara com camiseta do Helloween! Ei, você toca alguma coisa?”) e recrutaram um baixista que haviam conhecido num fórum do Edguy. O baixista ficou pouco tempo. Mas essa nova formação precisava de um baterista, que foi encontrado de maneira semelhante ao guitarrista: voltando de um “ensaio”, passaram no Shopping Santa Cruz, em São Paulo, e viram um rapaz usando uma camiseta do Blind Guardian. “Oi! Você toca alguma coisa?” | “Ah, toco bateria” | “Nossa, justamente o que a gente precisava!” | “Ah, mas eu só toco há 1 mês!”

Não importava. Nascia ali a Lifestream (nome tirado de um RPG, Final Fantasy 7, predileto dos fundadores). Muitas músicas foram montadas, algumas foram compostas; ocorreram muitas mudanças de direcionamento (não sabiam se tocariam apenas músicas próprias, se misturariam covers, se seriam apenas cover de uma única banda); diversas mudanças de formação foram moldando as características daquele grupo de jovens. Passaram por ali três baixistas, três guitarristas, três bateristas (dos que permaneceram por mais tempo, já que inúmeros foram testados) e um vocalista/tecladista.

Sete anos se passaram sem um único show. No meio tempo, uma nova mudança de nome: Logic Reverse. Enfim, uma formação estável. Enfim, um show marcado, uma estreia em grande estilo num dos bares de rock mais bem conceituados da capital paulista. Em três meses, outro show num bar da mesma categoria, animado, para um público ínfimo, mas fiel. Terceiro show marcado, mas não executado.

Olha esse cabelo...

Olha esse cabelo...

Fim da banda. Fim de um sonho. Sete anos de planejamento, um imenso arquivo de músicas, algumas poucas gravações caseiras (é, viva a época das gravações digitais e dos home studios!), tudo esmigalhado por um punho de quatro dedos: stress, vestibular, compromissos com outras bandas, desentendimento entre dois membros.

Um ano se passou desde então. O stress foi aliviado, os gostos musicais mudaram, e três amigos resolveram retomar aquela ideia: os dois fundadores e aquele baterista do shopping. O brother lá do comecinho, que era o único que tocava alguma coisa quando surgiu The Other Guys, trabalha demais, mas quando sobra um tempo se junta com os outros três pra esmerilhar as teclas de seu Yamaha. Baixo? Pra quê, se a inventividade e o clima de brincadeira permitem que um dos vocalistas (é, “um dos”, porque no meio do caminho o outro fundador, guitarrista, começou a cantar) use seu keytar para doar graves ao som do trio?

Pegue uma base de rock, tempere com pitadas de metal e grunge (que também são rock, mas um tanto modificado), acrescente um quase nada de pop. Leve ao forno por 50min e decore com três ou quatro velinhas. O resultado é essa banda aí, que pretende se divertir sem pensar muito num futuro como profissional, e que daqui a pouco vai ter um novo nome.