Li por aí que o Fernando Nitsch, o ator que conseguiu o feito de me fazer gostar de uma peça nesses moldes, não a considera um monólogo, mas sim um ‘stand-acting’, devido à interação constante com o público. Mas não foi esse diferencial que me fez gostar de fato do espetáculo. O caso é que não apenas o ator é muito bom, mas também a direção, o texto, a iluminação, o cenário… Falemos então de cada aspecto separadamente.
Reinaldo Maia, dramaturgo e diretor da peça, faleceu em abril, no meio de seu processo criativo, que foi continuado pelos assistentes Fabio Takeo e Gisele Valeri. Não conhecia o trabalho de Reinaldo até este sábado, mas percebi ali que perdemos um grande nome de nosso teatro. Seu brilhante texto traça paralelos entre a escravidão do século XIX – aquela nos moldes mais conhecidos e reconhecíveis por todos – e a dos tempos modernos, bem mais relativa. Partindo de cartas pró-escravidão escritas por José de Alencar (autor de O Guarani, cujos protagonistas são Ceci e Peri), o autor analisa nossa atual escravidão social e ideológica, as imposições sociais que sofremos, as pressões que recebemos em todas as áreas de nossa existência e que nos deixam perdidos, sem direção, presos em nossa própria casca, como no poema de Drummond a que remete a segunda metade do título da peça.
A montagem começa de forma bastante inesperada e nos apresenta como personagem um ator desconcentrado, desligado, que se vale de recursos bem pouco convincentes para “entrar no personagem” do indiozinho que a princípio representaria. Vale aqui um reforço importante: esse ator acima descrito é um personagem, interpretado, aliás, magistralmente por Fernando Nitsch. Em dado momento, ele desiste de sua proposta inicial para abordar o tema da escravidão, supracitado. Tudo isso é emoldurado e complementado perfeitamente pelos objetos do espaço cênico (que incluem, por exemplo, uma pilha de cobertores que remete imediatamente a um morador de rua), pela iluminação e pela sonorização, que colaboram para a compreensão dos propósitos da peça.
Falando em iluminação, “Ceci beijou Peri, e aí José?” é um dos poucos espetáculos em que de fato reparei na luz. Momentos esteticamente belos, com cores apropriadas a cada cena (de um vermelho-tensão a um azul-mistério), contrastam com a escuridão total, aqui, e o foco singelo de luz sobre um caderno, ali.
Como já dito, Fernando Nitsch atua excelentemente, cativando a plateia nos momentos em que dialoga com ela, provocando o raciocínio nas cenas mais filosóficas e o riso nas inúmeras piadinhas e trejeitos de seu personagem, ele próprio em constante conflito interno.
Trata-se, enfim, de uma ótima opção para quem acha que não gosta de monólogos, mas está disposto a tentar mudar de opinião. É uma das raras peças que conseguem, no mesmo curto espaço de tempo, nos fazer rir muito e também pensar, muito seriamente, em nossa condição humana.
[EDIT:] “Ceci beijou Peri, e aí José?” reestreou e fica em cartaz até 29/08/2010 no Ágora Teatro, sábados às 21h30 e domingos às 18h.
Serviço
Local: Ágora Teatro
Endereço: Rua Rui Barbosa, 672 – Bela Vista – São Paulo, SP
Horário: sábados, às 21h30, e domingos às 18h
Preço: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia)
Data: até 29 de agosto de 2010
Convênio com Estacionamento: CAR PARK (Rua Rui Barbosa, 714 – R$ 5,00)
Ficha técnica
Texto e direção: Reinaldo Maia
Assistência de direção: Fabio Takeo e Gisele Valeri
Elenco: Fernando Nitsch
Trilha sonora: Fabio Takeo e Reinaldo Maia
Iluminação: Erike Busoni
![cecibeijou-peri[1] (crédito da foto: http://colunistas.ig.com.br/aplausobrasil/2009/10/15/198/)](http://nacodepao.files.wordpress.com/2009/11/cecibeijou-peri1.jpg?w=645)

Edna
16/01/2010 at 00:09
Gostaria de saber onde consigo exemplares de alguns livros escritos pelo Reinaldo Maia.
O conheci nos anos 70, convivemos em uma época em que ele fazia percussão e o cenário da peça “Zumbí dos Palmares/Morte e vida Severina” na cidade de Osasco. Estive fora e ao retornar soube de sua morte.
Thiago Schiefer
16/01/2010 at 15:35
Edna, até onde sei, você pode encontrar os livros do Reinaldo Maia no Galpão do Folias (http://www.galpaodofolias.com.br/)
Edna Valim
05/09/2010 at 16:13
Obrigada Thiago!
Vou visitar o “Galpão” e aproveitar para adquirir alguns livros, isto é, se ainda existir algum disponível.
Obrigada.