Chen Tê foi escolhida por Deus como a única alma boa de seu vilarejo. Mesmo sendo prostituta, mesmo tendo que pagar o aluguel, é a única. Tudo porque pensa no bem dos outros antes de seu próprio, porque não se preocupa apenas consigo mesma.
Chen Tê se transforma então em Chui Ta, seu “primo”, para conseguir dar a si mesma mais atenção. E por que chega a esse ponto? Porque não dá conta de ser boa consigo mesma e com os outros ao mesmo tempo. Torna-se “má” para conseguir suprir as próprias necessidades.
A abordagem é humorística (nem poderia deixar de sê-lo, com Denise Fraga e Ary França no elenco sob a direção redonda de Marco Antônio Braz), mas a mensagem é de uma seriedade absurda – como se espera de um texto de Bertold Brecht, considerado o grande propagador do teatro épico e conhecido por buscar, em suas peças, levar o público à reflexão (tendo isso uma importância superior até mesmo à do enredo).
O que dizer dos atores? Os dois “monstros” citados acima já são conhecidos também por aqueles que não costumam frequentar teatros, dado seus conhecidos trabalhos na TV. Unem-se a eles outros excelentes atores: Kiko Marques, com sua voz engraçada e corpo ágil; Joelson Medeiros, dono de uma interpretação escrachada e divertida; Marcos Cesana, ator com voz potente, clara e versátil; e demais atores não menos competentes.
Os figurinos nos transportam imediatamente ao imaginário vilarejo chinês de Setsuan, povoado por pessoas extremamente pobres e, por isso mesmo, individualistas – nas palavras de Chen Tê, “como alguém pode não ser mau quando tem fome?” (devo ressaltar que esta frase levou a plateia, que até então gargalhava, a um silêncio sepulcral). Os cenários, apesar de relativamente simples na maior parte do espetáculo (exceção feita à fábrica de Chui Ta), contribuem igualmente para nos situar no ambiente em que vivem os personagens.
Pessoalmente, adorei a seleção musical que fazia fundo a certas cenas: além de uma “orientalidade” marcante, com samples de músicas tradicionais chinesas, havia em alguns momentos uma mistura muito interessante e vibrante entre a música oriental e guitarras pesadas, com o ritmo marcado por uma bateria eletrônica típica do techno. Ponto a favor para Théo Werneck, responsável pela trilha sonora, que cumpriu seu papel com maestria.
A Alma Boa de Setsuan é certamente uma das melhores e mais estimulantes peças a que já tive o prazer de assistir, e a recomendo fortemente. Veja aqui um videozinho bem legal, uma entrevista com o Deus interpretado pelo fantástico Ary França.
Serviço
Local: TUCA
Endereço: Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes – São Paulo, SP
Horário: sextas e sábados às 21h30, domingos às 19h
Preço: sextas, R$ 20,00; sábados e domingos, R$ 30,00
Data: segundo a Denise Fraga, até o final de abril
Ficha Técnica
Direção: Marco Antônio Braz
Assistente de direção: Ana Paula Nero
Adaptação: Marco António Braz e Marcos Cesana
Elenco: Denise Fraga, Ary França, Cláudia Mello, Joelson Medeiros, Kiko Marques, Fábio Herford, Jacqueline Obrigon, Marcos Cesana, Virgínia Buckowski, Maristela Chelala e João Bresser.
Cenografia/Direção de Arte: Márcio Medina
Trilha Sonora: Théo Werneck
Iluminador: Wagner Freire
Figurinista: Verónica Julian
Visagista: Emi Sato
Direção de Produção: Fernando Cardoso e Roberto Monteiro

Bá
11/04/2010 at 15:49
Foi muito boa mesmo!!!
E eu continuo a não rir em momentos que a platéia gargalha. Na verdade, às vezes até choro, como aconteceu na Alma Boa.
Mas eu gosto. Acho que assim o mei jeito de entender é mais meu, mais eu.
Ir ao teatro é comida.