Segunda parte do diário que gravei na minha viagem para o Guarujá no fim de 2011. Desabafo sobre a solidão de viajar sozinho e reflexões sobre o culto do corpo “em forma” que vivemos hoje em dia.
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Morte e renascimento (ou: A história de uma demissão)
Dia 0. Chegou. Acho que esta é uma história que vale ser compartilhada.
Há três meses, mais ou menos no dia do meu aniversário, comecei a me perguntar por que eu ainda estava trabalhando no mundo corporativo, com horários que não só vinham prejudicando minha saúde (e minha sanidade), mas também estavam consumindo um tempo precioso para meu estudo de teatro – parte de meu grande objetivo de vida (profissional, ao menos), que é trabalhar com arte.
Depois de muito pensar, percebi que o dinheiro que ganho com meu trabalho “comum” não era motivo o bastante para continuar me privando de perseguir meu sonho. Claro, se eu tivesse uma casa ou uma família para sustentar, este seria um motivo muito significativo, mas não é o caso. Percebi que, se continuasse com o mesmo padrão de pensamento que eu vinha levando (“No dia em que eu trabalhar com arte, tudo vai ser diferente”), eu chegaria aos 50, 60 anos com esse mesmo discurso. E então a chance já teria passado e eu seria mais um senhor de meia-idade dizendo “Oh, como eu me arrependo de não ter seguido a carreira que eu queria!”.
Decidi então que pediria demissão de meu emprego tradicional para me aventurar pelo mundo da arte. Como tenho domínio de boa parte da teoria musical e conheço os meios para desenvolver tecnicamente um indivíduo como guitarrista ou cantor, resolvi me lançar como professor de música. Juntei-me ao meu amigo Victor Camilo para montar um repertório de voz e violão para tocar em bares. Planejei fazer um book e correr atrás de trabalhos para publicidade e curtas-metragens, como ator. Comecei a participar mais ativamente da comunidade de remixes de game music OC Remix para tentar emplacar alguns dos meus arranjos, e quem sabe abrir caminho para entrar no mercado de trilhas sonoras para videogames. E começarei em breve a montar meu próprio site para divulgar tudo isso.
E por três meses fui, aos poucos, lançando as bases para essa “aventura”, esse risco que, com o tempo, foi-se tornando totalmente consciente. Fiz muitos cálculos para saber qual seria o impacto financeiro da minha decisão em meu orçamento, quais cortes eu teria (terei) que fazer, etc.
Segurança? Nenhuma. Mas com a mobilização das minhas energias no sentido de renovar minha própria vida, tudo pareceu começar a se ajeitar para mim antes mesmo de meu pedido oficial de demissão, na última sexta. Um jornal que foi parar por engano em minha casa trazia o anúncio de uma escola que buscava professores de canto bem perto de onde moro, anúncio que por sorte (sorte?) minha mãe acabou vendo e me mostrando. Comecei a dar aulas nessa escola oficialmente no sábado passado.
Há menos de uma semana, me aparece um concurso chamado Game Music Brasil, visando a promover a produção de trilhas de games no Brasil. O prêmio de composição coloca a música do vencedor no jogo Critical Mass, que está sendo produzido por aqui. Evidentemente eu já estou inscrito.
O primeiro ensaio com o Victor foi extremamente produtivo, mesmo com minha voz em estado deplorável (graças a uma alergia). Belos arranjos acústicos surgindo de uma simples jam entre dois amigos.
E, como se não bastasse tudo isso, em breve darei uma entrevista ao programa Garagem 42, da Rádio Cesumar (de Maringá-PR), sobre – adivinhe! – game music. Isso graças a um vídeo que publiquei no YouTube, com minha versão rock para a conhecida música-tema de Chrono Cross.
Grandes fatos aconteceram, estão acontecendo e irão acontecer. Morre um funcionário precavido e nasce um artista em busca de muito trabalho e reconhecimento. O retorno (agora, não apenas financeiro) virá. Agradeço ao universo pela sincronicidade.
Dia gripado
8:39. Há quatro dias minha cara parece mal encaixada no crânio. Não aguento mais o cheiro de ranho com sangue. Tosse. Também não aguento mais ficar na cama, apertada e vazia de tudo, então me levanto. Tosse, tosse.
Os primeiros passos vêm com tontura, como se todo aquele muco pulasse dentro da minha cabeça a cada passo. Vou até o banheiro e lavo o rosto. Tosse. Queria que ela estivesse aqui.
Ah, se ela soubesse desse vazio! O problema de deixar uma parte do seu coração com alguém [tosse] é que, se esse alguém fica muito tempo longe, você parece viver pela metade. E parece mais difícil atingir a cura da gripe, ou qualquer outra, quando você está pela metade.
Tosse. Não suporto mais tossir. Tosse, tosse, tosse. Minha garganta reclama há quase uma semana desta unha que lhe arranha o dia todo. Tosse. E desta bolota de desconforto que lhe desce sem descer.
Histeria. Tosse, fungo. Me sinto ocupando [tosse] o lugar social da mulher quando sua falta me leva ao breakdown. Fungo. Só queria que você estivesse aqui. Fungo, tosse, lágrima. Por que toda essa insegurança [fungo] se ela te ama? E se você sabe disso? O homem, [fungo] macho, [fungo] hetero, [lágrima] suposto símbolo social de força, pode se permitir um acesso de carência? Fungo. Lágrima. Tosse. Pode.
Sobre a perfeição
Não sei você, mas eu, desde que me conheço por gente, sempre fui perfeccionista. Sempre fiz a maior parte das coisas com foco no objetivo, e o objetivo sempre perfeito.
Há minutos, no entanto, após uma conversa com uma das minhas melhores amigas, me dei conta de uma verdade muito simples: a perfeição é resultado do erro. Tem origem em sua própria antítese. Qualquer indivíduo só se torna [quase] perfeito em algo após fazê-lo inúmeras vezes, errando em todas estas, até que sua percepção se dê conta das falhas e seu cérebro aprenda a suplantá-las. Ou, se preferir as palavras de Jean Piaget,
A evolução da inteligência e, por conseguinte dos conhecimentos, tem como essencial fonte as regulações advindas de situações pertubadoras. Fica evidente nessa tese a importância do erro na aprendizagem e no desenvolvimento. [Fonte: Pedago Brasil]
Não acho, contudo, que seja equivocado buscar sempre a perfeição. Ela é um forte agente motivador para que possamos dar nosso máximo e atingir o melhor resultado possível. Mas é preciso ter humildade e respeitar a própria evolução. É preciso reconhecer que são necessários muitos passos para chegar do nada à perfeição, o fim da estrada; e é aconselhável curtir a paisagem, porque não deve ser tão divertido assim fazer tudo sem erros. Sempre descartamos ou queremos acabar logo aquelas atividades que não parecem ter nenhum objetivo, certo?
Portanto, se você está descontente porque queria cantar melhor, dançar melhor, parar de queimar o arroz na panela ou escrever com uma linguagem só sua, pare e pense. Respeite sua posição na estrada – não desmerecendo o que faz, mas vendo cada imperfeição como um passo adiante. Faz isso por aí que eu vou tentar fazer por aqui.
Trilhos e bifurcações
Imagine que, com cada pessoa, você sobe num trem diferente e segue por trilhos. Com determinadas pessoas, o trilho é único, o caminho é fácil; geralmente nesses casos a viagem chega a seu destino rapidamente, o trem pára, vocês descem e seguem seus próprios caminhos a pé.
Em outros casos, no horizonte se vê uma bifurcação. Ou talvez se possa chamar desvio. Você pode seguir reto ou virar à direita. Se for virar à direita, tem que puxar aquela alavanca que faz os trilhos se reposicionarem. E no começo, a cada 5 minutos o caminho da direita te oferece uma oportunidade de voltar ao trajeto original. Mas só no começo. O caminho da direita oferece perigos, altos e baixos, e você nunca sabe o que virá à frente.
O duro é quando você sem querer usa a alavanca pra virar à direita, quer voltar, mas todas as alavancas à frente emperraram.
O véu
Um branco pastoso turba minha visão. Mas não se engane: meus olhos ainda captam bem as formas e cores refletidas pelos corpos do mundo. Sou um cego que enxerga.
As formas difusas que vejo às vezes me parecem tão próximas… mas aquelas que eventualmente alcanço, que necessitam de manufatura, levo longo tempo para esculpir.
Eventualmente caem pedaços de lógica nessa espécie de leite à minha frente; eles abrem um espaço pelo qual, em breve instante, enxergo com mais nitidez. Enxergo um relógio: marca 2h50, e corre. Ele conta as horas. Os dias. A vida.
Uma lógica de Sherlock me serve de óculos. Ao caçar, na arte, significados e subtextos, detalhes essenciais, sinto como se enxergasse novamente. Intensifica-se por dentro, num átimo, o que outrora era frequente.
Não há como pagar uma cirurgia corretiva. Não agora. Quem sabe um dia, quando ocorrer a fusão de sonho e realidade…
Fé X Religião
Antes de mais nada: este blog não pretende discutir religião e eu não faço proselitismo em relação a nenhuma doutrina. Só que hoje, ao fazer o Evangelho com minha mãe pela manhã, me deparei com uma passagem que se aplica tanto ao ateu quanto ao religioso mais fanático:
No homem, a fé é o sentimento inato de seus destinos futuros; é a consciência que ele tem das faculdades imensas depositadas em gérmen no seu íntimo, a princípio em estado latente, e que lhe cumpre fazer que desabrochem e cresçam pela ação da sua vontade.
Até ao presente, a fé não foi compreendida senão pelo lado religioso, porque o Cristo a exalçou como poderosa alavanca e porque o têm considerado apenas como chefe de uma religião. Entretanto, o Cristo, que operou milagres materiais, mostrou, por esses milagres mesmos, o que pode o homem, quando tem fé, isto é, a vontade de querer e a certeza de que essa vontade pode obter satisfação.”
(KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Federação Espírita Brasileira, 82ª edição, p. 320; grifos meus)
Em outras palavras: fé é acreditar no futuro e na força da própria vontade. Não tem nada a ver com religião, mas, apenas pelo fato de Jesus tê-la tomado como exemplo de ferramenta para alcançar a Deus, e pelo fato de ser visto apenas como o chefe de uma religião, muitos tendem a descartar sua força. Por que alguns se precipitam a jogar fora uma habilidade inata, intensa e útil aos mais diversos propósitos só por não compactuarem com a visão cristã?
René Magritte
Se existe um movimento que eu curto nas artes plásticas, é o Surrealismo. E se, dentro deste movimento, tem um pintor que eu possa apontar como favorito, sem dúvida nenhuma é René François Ghislain Magritte.
Acho que o grande barato do Surrealismo, e especialmente da obra deste senhor belga nascido em 1898, é que os quadros são como fotografias de sonhos. Como nos sonhos, tudo é muito real, quase palpável, mas as coisas misturam-se de uma forma totalmente irreal (eu até poderia dizer também “ilógica”, mas sempre há uma lógica por baixo dessas doideiras).
Magritte tinha algumas marcas registradas, elementos que aparecem em várias de suas obras. Várias delas são a vista através de uma janela; outras tantas apresentam uma maçã verde, e algumas ainda contam com uma esfera dotada de uma fenda horizontal (dizem ser um daqueles sininhos de trenó, mas sei lá se são mesmo).
A maçã, em dois bons exemplos, talvez possa ser interpretada como o pecado. É uma interpretação bem tradicional, mas nestes casos me parece bastante convincente: em O filho do homem (acima), vemos um homem com o rosto coberto pela maçã – talvez possa-se pensar que o homem é encoberto pelo pecado, fruto seu; e mais evidentemente em O padre casado (abaixo), duas maçãs equipadas com máscaras, dois pecados escondendo-se do mundo.
Já a esfera horizontamente cortada (ou o sino, se formos seguir o consenso) é a que mais me intriga, desde algum tempo. Na maior parte dos casos, remete-me à modernidade, às máquinas – talvez porque as obras em que aparecem com mais evidência chamem-se O autômato I, O autômato II (ambas abaixo) e A voz do espaço. Acho muito curiosa a aparição desta figura na obra Memória (de 1948, ao lado), em que aparece ao lado de uma cabeça típica de esculturas clássicas que sangra. Parece que a esfera foi arremessada contra a cabeça, ferindo-a, e observamos o resultado. Será um recado de que o moderno “venceu” a arte clássica, a “memória” de tempos passados?
Essa habilidade de provocar o raciocínio é o que mais me fascina na obra de Magritte. Ela permite ao observador tirar uma série de conclusões a respeito deste ou daquele quadro, sem que haja necessariamente uma conclusão “correta” – afinal, são representações do subconsciente. E no plano do subconsicente não existem verdades absolutas.
Catarro no cérebro
Você que tem sinusite sabe que, quando ela resolve atacar, você sente como se todo seu rosto estivesse entupido, as maçãs da face ficam com aquela sensação incômoda de pressão…
Pois é, chega fim de ano e eu tenho a mesma sensação, só que no cérebro. Depois de trezentos e tantos dias de recepção quase ininterrupta de informações (poucas das quais transformam-se em conhecimento), a cabeça começa a cansar, e parece que se cria um muco em torno do cérebro, impedindo que ele absorva mais alguma coisa. Aí preciso parar um pouco e assoar o crânio.
É curioso como essa sensação parece se intensificar a cada ano. Na minha vida, por exemplo, algumas novas fontes de informação se acrescentaram às demais em 2009: Twitter, o emprego (trabalhar com Comunicação dá nisso), curso de teatro… e isso vem se somar ao que já existia antes, causando um cansaço mental ainda maior do que nos anos anteriores. Nos últimos dias antes das férias do teatro, por exemplo, eu mal conseguia absorver o que via nas aulas, mal conseguia entrar em situação quando preciso, agia sempre quase que por impulso – ou melhor, apenas reagia aos impulsos externos.
A INFO deste mês publicou uma matéria bastante interessante sobre esse negócio de overdose de informação. Nela, o cientista da computação entrevistado Christian Barbosa faz uma afirmação que me fez pensar: “O ser humano não sabe usar bem seu tempo. Ele quer se colocar ocupado o tempo todo”.
Não é que faz sentido? Na minha vida, pelo menos, se aplica. De segunda a quarta, me ocupo cerca de 17h/dia – ou seja, da hora de acordar à hora de dormir eu simplesmente não paro. Os outros quatro dias são um pouco menos intensos, mas nem por isso leves ou relaxantes. Ação e reação non-stop. Uma hora a máquina enguiça e preciso de uma revisão.
…bem, acho que vou arrumar um tempo pra fazer nada em 2010
Da vida das flores
Imagine que somos rodeados por pequenas sementes flutuantes. Quando nossa alma encontra um terreno que lhe parece fértil, voa ali uma dessas sementes.
Em alguns terrenos, ela começa a germinar. Germina muitas vezes sem saber onde está ou o que será dela um dia. Germina contente, cheia de vida, quase brilha com luz própria.
E começa a crescer. Conforme o tempo passa, ela vai tomando contato com o terreno, conhecendo-lhe as peculiaridades. Intempéries surgem: um vento mais forte, uma chuva mais intensa, uma praga que pode resolver atacar-lhe.
Aí que entram as espécies. Algumas sementes se tornam lindas flores, rosas vermelhas, que banham a vista, mas morrem em pouco tempo.
Outras viram árvores frondosas, resistentes: cuidadas por um bom jardineiro, crescem a olhos vistos e duram muito. Cada um de nós tem uma semente que gera uma árvore majestosa e perene. Não quer dizer que todos lhe achem o terreno apropriado.
Boa parte das sementes gera plantinhas que não sobrevivem às peculiaridades do terreno ou às tempestades que desabam sobre elas. Isso não impede, no entanto, que elas caiam ao solo e tentem viver.
… queria ser um jardineiro melhor.




