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Arquivo da categoria: Resenhas

Resenhas de peças de teatro, álbuns de música e o que mais der na telha

Jekyll & Hyde: O Médico e o Monstro

Jekyll & Hyde (divulgação)Semana passada fui assistir ao musical Jekyll & Hyde – sim, aquele mesmo para o qual fiz audição há um ano.

O espetáculo já começa a envolver o espectador antes mesmo de começar: no foyer é distribuído um programa simplificado cuja capa imita um jornal da Londres do século XIX, situando-nos na época em que se passa a ação; uma vez dentro do teatro, há um barulho de chuva ininterrupto, que colabora para nos colocar “no clima” da peça. Resumidamente, ela fala sobre Henry Jekyll, um cientista que deseja inventar uma fórmula para separar os lados bom e mau do ser humano, para poder liquidar a maldade no mundo e, com isso, salvar seu próprio pai da loucura (a qual ele crê dever-se a seu lado mau). Leva a proposta aos dirigentes de um hospital, pedindo permissão para fazer de alguns pacientes suas cobaias, mas seu pedido é prontamente rejeitado, o que o leva a conduzir seus experimentos consigo mesmo. E por aí vai.

Kiara Sasso (crédito: site oficial)

Kiara Sasso no papel de Emma

Logo de cara já é possível perceber que o forte desta montagem é a música: acompanhados por orquestra e banda, os cantores mostram um desempenho absurdo do começo ao fim, com merecido destaque aos protagonistas Nando Prado (Jekyll/Hyde), Kacau Gomes (Lucy, a prostituta) e principalmente Kiara Sasso (Emma, noiva de Jekyll).

A performance vocal, os belos efeitos especiais (incluindo chuva e fogo, que contribuíram para alçar o orçamento da montagem aos 6 milhões de reais) e os incríveis figurinos de Fause Haten são, na maior parte do tempo, o bastante para encobrir o desempenho não tão bom em termos de atuação. Claro que não podemos esperar uma interpretação puramente realista num musical, simplesmente porque em realidade as pessoas não cantam para comunicar tudo o que querem, mas em diversos momentos é fácil perceber que boa parte dos cantores apenas decorou suas marcas, sem a preocupação de deixá-las orgânicas – em diversos momentos a movimentação e os gestos simplesmente não convencem. Exceções notáveis a isso são a própria Kiara Sasso (para mim, a estrela maior do espetáculo) e Nando Prado, especificamente na cena em que discute consigo mesmo (Jekyll vs. Hyde), num trabalho de corpo que impressiona. Nem preciso dizer que, atuando bem ou mal em termos gerais, Nando é infinitamente superior a David Hasselhoff, que “interpretou” o papel principal na Broadway.

Kacau Gomes (crédito: divulgação)

Kacau Gomes como Lucy

Jekyll & Hyde é uma peça de entretenimento. Não sei se por estar muito acostumado à história, saí do teatro sem grandes reflexões – mas creio não ser este o objetivo do espetáculo. Uma curiosidade, porém, vale destacar: durante os aplausos, Kacau Gomes foi a mais ovacionada, com berros emocionados vindos de todas as partes, o que corrobora aquela ideia de que geralmente o público se identifica mais com a personagem-pária-social do que com os “mocinhos”. É para se pensar (fique à vontade para comentar sobre o assunto aqui se tiver alguma ideia do porquê disso).

Ah, em relação a eu ter feito audição para esta peça e não ter passado: eu realmente não havia atingido a maturidade vocal necessária para fazer um musical deste porte na época da audição (e me pergunto se hoje já consegui atingir o mínimo necessário). Engraçado, porém, que o personagem Spider, para o qual eu tinha audicionado, foi simplesmente limado da peça – nas poucas aparições que faria, foi substituído por Stride, o pretendente ciumento que perdeu Emma para Jekyll. E mais uma coisinha: no post que escrevi sobre a audição eu disse: “Não tive receio de me ‘queimar’ com o diretor porque acredito já ter uma voz suficientemente preparada para não ser visto como um ‘aventureiro sem noção’”. Aí eu descobri que o diretor é Fred Hanson, que participou da produção de alguns musicais gigantes na própria Broadway. Hehe.

Serviço
Local: Teatro Bradesco
Endereço: Rua Turiassú, 2100 – Bourbon Shopping, 3° piso – São Paulo
Horários: quinta, 21h; sexta, 21h30; sábado, 17h e 21h; domingo, 18h
Preços: R$ 40,00 a R$ 190,00 (mais detalhes no site do teatro, link acima)
Data: até 17 de outubro de 2010


 
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Publicado por em 26/09/2010 em Arte, Música, Resenhas, Teatro

 

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A Origem (Inception)

Christopher Nolan é o cara. Foi com esta ideia que eu saí do cinema após assistir a seu último filme, “A Origem”, com Leonardo DiCaprio, Ellen Page e outros (incluindo Michael Caine, que faz breves aparições).

Minha ideia não vem de agora. Depois de assistir a “Amnésia” (“Memento” no original) e aos dois últimos filmes do Batman, verdadeiras obras-primas em minha humilde visão sobre cinema, já creditava um imenso respeito ao diretor anglo-americano pela habilidade em colocar no circuito mainstream filmes com bastante profundidade e com formatos diferentes – acredito que sua versão do homem morcego merece os maiores elogios, pois tirou aquela aura ultrafantástica típica dos filmes de super-heróis para transforma-lo num ser humano palpável, real.

[AVISO: se você gosta de apreender tudo sobre um filme enquanto o assiste, sem nenhum conhecimento prévio, não leia o texto abaixo. Não chega a ser um spoiler, mas explica sua lógica de raciocínio]

Inception PosterA lógica do filme foi o que mais me surpreendeu. “A Origem” parte do pressuposto de que a maneira mais fácil e precisa de extrair uma informação da mente de alguém é através dos sonhos, dado que o sono é o estado mais vulnerável em que uma pessoa pode estar. Para que seja possível a alguém extrair tais informações, há um equipamento que permite o compartilhamento de um mesmo sonho, chamado dream-share. Duas figuras no sonho são importantes: o sonhador, o primeiro a dormir, que é responsável por criar o “cenário” onde o sonho se passará; e o sujeito (subject no original), pessoa da qual se deseja extrair a informação, que preenche o sonho com suas referências (basicamente população e informações). Os demais apenas devem interagir com o que é dado – conseguem, sim, criar algo mais, mas se a “realidade” do sonho for demasiadamente modificada por agentes externos – ou seja, qualquer um que não seja o sujeito -, sua consciência percebe tratar-se de um sonho e se defende através das pessoas com as quais povoou o cenário, que agem como anticorpos, atacando o que lhes parece estranho. A morte de alguém no mundo do sonho faz com que esta pessoa acorde, assim como  sensação de queda. A premissa de uma existência num mundo paralelo altamente “editável” (no caso, o sonho) lembra bastante “Matrix”, mas graças ao sistema de anticorpos do sujeito não existe toda a liberdade de criação e manipulação desta realidade alternativa como havia no filme de Andy e Lana Wachowski.

Assim como na vida real, no entanto, aqui é possível “encadear” sonhos. Isso quer dizer que é possível ter um sonho dentro de um sonho, ou, em outras palavras, sonhar que está sonhando; e essa é a grande sacada estrutural do filme, que torna a apresentação menos linear: temos uma realidade dentro de outra realidade dentro de outra realidade…

“A Origem” é, enfim, uma excelente obra cinematográfica, surpreendentemente inteligente para os padrões que geralmente vemos no Cinemark – nada contra filmes como O Homem de Ferro ou comédias românticas açucaradas, que simplesmente têm outra proposta. A sensação de sair da sala de cinema tentando voltar à realidade física faz cada centavo do ingresso valer a pena.

Se bater aquela curiosidade de ver o filme e você não puder sair de casa agora para isso, pode ter um tiragosto e ir se acostumando com essa lógica tão caprichada lendo o prelúdio ao filme, apresentado como uma história em quadrinhos, em seu próprio site.

 
 

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A Alma Boa de Setsuan

Chen Tê, por Denise FragaChen Tê foi escolhida por Deus como a única alma boa de seu vilarejo. Mesmo sendo prostituta, mesmo tendo que pagar o aluguel, é a única. Tudo porque pensa no bem dos outros antes de seu próprio, porque não se preocupa apenas consigo mesma.

Chen Tê se transforma então em Chui Ta, seu “primo”, para conseguir dar a si mesma mais atenção. E por que chega a esse ponto? Porque não dá conta de ser boa consigo mesma e com os outros ao mesmo tempo. Torna-se “má” para conseguir suprir as próprias necessidades.

A abordagem é humorística (nem poderia deixar de sê-lo, com Denise Fraga e Ary França no elenco sob a direção redonda de Marco Antônio Braz), mas a mensagem é de uma seriedade absurda – como se espera de um texto de Bertold Brecht, considerado o grande propagador do teatro épico e conhecido por buscar, em suas peças, levar o público à reflexão (tendo isso uma importância superior até mesmo à do enredo).

O que dizer dos atores? Os dois “monstros” citados acima já são conhecidos também por aqueles que não costumam frequentar teatros, dado seus conhecidos trabalhos na TV. Unem-se a eles outros excelentes atores: Kiko Marques, com sua voz engraçada e corpo ágil; Joelson Medeiros, dono de uma interpretação escrachada e divertida; Marcos Cesana, ator com voz potente, clara e versátil; e demais atores não menos competentes.

Os figurinos nos transportam imediatamente ao imaginário vilarejo chinês de Setsuan, povoado por pessoas extremamente pobres e, por isso mesmo, individualistas – nas palavras de Chen Tê, “como alguém pode não ser mau quando tem fome?” (devo ressaltar que esta frase levou a plateia, que até então gargalhava, a um silêncio sepulcral). Os cenários, apesar de relativamente simples na maior parte do espetáculo (exceção feita à fábrica de Chui Ta), contribuem igualmente para nos situar no ambiente em que vivem os personagens.

Pessoalmente, adorei a seleção musical que fazia fundo a certas cenas: além de uma “orientalidade” marcante, com samples de músicas tradicionais chinesas, havia em alguns momentos uma mistura muito interessante e vibrante entre a música oriental e guitarras pesadas, com o ritmo marcado por uma bateria eletrônica típica do techno. Ponto a favor para Théo Werneck, responsável pela trilha sonora, que cumpriu seu papel com maestria.

A Alma Boa de Setsuan é certamente uma das melhores e mais estimulantes peças a que já tive o prazer de assistir, e a recomendo fortemente. Veja aqui um videozinho bem legal, uma entrevista com o Deus interpretado pelo fantástico Ary França.



Serviço

Local: TUCA
Endereço: Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes – São Paulo, SP
Horário: sextas e sábados às 21h30, domingos às 19h
Preço: sextas, R$ 20,00; sábados e domingos, R$ 30,00
Data: segundo a Denise Fraga, até o final de abril


Ficha Técnica

Direção: Marco Antônio Braz
Assistente de direção: Ana Paula Nero
Adaptação: Marco António Braz e Marcos Cesana
Elenco: Denise Fraga, Ary França, Cláudia Mello, Joelson Medeiros, Kiko Marques, Fábio Herford, Jacqueline Obrigon, Marcos Cesana, Virgínia Buckowski, Maristela Chelala e João Bresser.
Cenografia/Direção de Arte: Márcio Medina
Trilha Sonora: Théo Werneck
Iluminador: Wagner Freire
Figurinista: Verónica Julian
Visagista: Emi Sato
Direção de Produção: Fernando Cardoso e Roberto Monteiro

 
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Publicado por em 04/04/2010 em Arte, Resenhas, Teatro

 

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Avenida Q em São Paulo

Avenida QNo último mês de julho, fiz uma apresentação lá no Souza Lima com várias cenas de musicais, como Les Misérables, Legally Blonde, Ópera do Malandro e Avenida Q. Na época, este último estava em cartaz no Rio. Claro que, quando veio pra Sampa, eu fiquei muito ansioso para ver – e eis que, na sexta passada, que eu achava ser do último fim de semana desta peça em cartaz, lá fui eu ao Teatro Procópio Ferreira assistir.

Altas expectativas para o musical dos bonecos. Tão altas que nem eu achava que iam ser satisfeitas. Mas me enganei: foi uma das melhores peças que já tive a oportunidade de ver! São tantas coisas para comentar que vou separando por tópicos, pra nós nos entendermos:

Local

Construído em 1948, o teatro fica ali na Rua Augusta, entre a Oscar Freire e a Estados Unidos. É bem amplo, ainda que não seja gigantesco (são 670 cadeiras meio puídas, mas ainda assim confortáveis), e conta com uma ótima acústica e um belo e moderno foyer, com um bar bem no meio.

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e o protagonista Princeton (André Dias)

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e o protagonista Princeton (André Dias)

Produção

Comecemos pelos figurinos: por mais que os personagens humanos tenham trajes bem interessantes e característicos, o que mais chama a atenção são mesmo os bonecos. E sim, alguns deles têm mais de um figurino, entre pijamas e roupas de gala – isso quando não aparecem nus! Pois é, pra quem nunca ouviu falar da peça, vale dizer: trata-se de uma espécie de Vila Sésamo com temática adulta, com direito a palavrões, discussões sociológicas e até cenas de sexo entre muppets.

O cenário, em alguns momentos bem abrasileirado (isso porque trata-se de uma versão de um musical da Broadway), conta com alguns “acessórios” bem bacanas, como o par de camas do apartamento de Rod e Nicky (numa cena que é interessantemente vista “de cima”) e o Empire State Building que aparece em certa altura da encenação.

O som dos atores/cantores e da banda, que toca escondida, mas ao vivo, é muito bem equalizado e sai das caixas com excelente qualidade – tanto em termos de áudio quanto de execução.

Minha única ressalva neste tópico é quanto a cobrarem pelo programa do espetáculo. Ok, o papel é bom, tem verniz e tudo, foi caro fazer, mas cobrar R$ 10 à parte por algo que complementa a peça é um exagero.

Texto

Escrito originalmente por Robert Lopez e Jeff Marx (letras e música), o texto ao mesmo tempo bem-humorado e “agressivo” (porque nos faz pensar na lógica da sociedade em que vivemos) foi excelentemente traduzido por Claudio Botelho nesta versão tupiniquim. A grande sacada foi manter a tradução levemente aberta, o que permite contextualizar algumas piadas de acordo com o local da apresentação (como quando um personagem gay convida outro para ir ao Shopping Frei Caneca, conhecido em SP por ser bastante frequentado por homossexuais; na montagem carioca o local citado era outro).

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e Nicky (Fred Silveira)

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e Nicky (Fred Silveira)

Atores

É aqui que a peça brilha. O texto é excelente, a produção é esmerada, os músicos são altamente gabaritados, mas o elenco de Avenida Q é o que realmente faz a peça valer a pena. Todos os que pilotam bonecos conseguem fazê-los andar com naturalidade, ter trejeitos e vozes características (e cantar com elas), além de utilizarem suas próprias expressões faciais como um complemento para as dos bonecos. É incrível como alguns dos atores controlam (e falam por) mais de um boneco – com surpreendentes momentos como, por exemplo, quando Sabrina Korgut, que faz Kate Monstra e Lucy de Vassa, está escondida dentro do casarão do cenário com o boneco de Kate, enquanto Renata Ricci encontra-se no palco controlando Lucy, e mesmo assim ouvimos, em sincronia perfeita, Sabrina falando por Lucy. O que mostra quanto trabalho esses fantásticos atores tiveram ensaiando antes de estrearem.

No dia em que fui assistir à peça, os três personagens humanos foram vividos pelos stand-ins. Minha única ressalva fica por conta de Carll Santos, que, ainda que bom ator, parecia não estar muito presente nas cenas, muitas vezes exagerando movimentos, e em outras com o olhar aparentemente distraído e distante. Mas nada que comprometesse seu Gary Coleman no contexto geral.

***

Avenida Q continua em cartaz, diferentemente do que eu esperava, até 13/12. Então, você ainda tem pouco mais de um mês para ver (ou rever) esse fantástico musical, extremamente divertido e cativante. Aproveite a campanha Vá ao Teatro para comprar o ingresso por R$ 5 (é, cincão, acho que sentando nas laterais) ou pague R$ 80 (inteira) para escolher um lugar mais centralizado. Só não deixe passar a oportunidade.

Ficha técnica aqui. E um videozinho de aperitivo:

 
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Publicado por em 02/11/2009 em Música, Resenhas, Teatro

 

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La Musica

Xuxa Lopes e Hélio Cícero, o casal de La Musica

Xuxa Lopes e Hélio Cícero, o casal de La Musica

Sábado à noite, eu e minha namorada íamos assistir à peça Alma Boa de Setsuan, no Tuca, em São Paulo. Chegando lá, demos de cara com uma baita multidão. Entramos na fila da bilheteria e o rapaz que a organizava falou que não haviam mais ingressos para a peça naquela noite, mas que ainda poderíamos conseguir um lugar para o espetáculo em cartaz ali do lado, no Tucarena. Apressados e em cima da hora, aceitamos a sugestão, e lá fomos nós assistir a La Musica.

Entramos logo após o segundo sinal. A música já começava a inserir o público num certo clima. Terceiro sinal, baixam as luzes e a ação tem início.

A peça é um diálogo entre as personagens Anne-Marie Roche e Michel Nollet, vividas respectivamente por Xuxa Lopes e pelo fantástico Hélio Cícero. Divorciados há cerca de três anos, o casal francês idealizado por Marguerite Duras em 1965 estivera completamente afastado até o reencontro inesperado no saguão de um hotel, cenário da apresentação. Ali, inicialmente muito constrangidos, eles voltam a se falar e aproveitam para ‘lavar a roupa suja’.

O texto trata de assuntos como adultério, ciúmes, casamento. Os longos e densos silêncios do início da peça são lentamente substituídos por discussões cada vez mais intensas, que tratam não apenas do passado de cada um e dos motivos que levaram ao fim do casamento, mas abrangendo questões mais profundas, como a manutenção da liberdade de cada metade do par mesmo após consumarem-se os sagrados votos. Liberdade que deveria permitir à mulher suas solitárias incursões ao cinema ou às corridas de cavalo, mas que provocam no marido um ciúmes imenso dela com… ela mesma.

O clima noir da Paris do século passado faz-se tanto pelos móveis e pelo papel de parede quanto pelas lâmpadas quentes que cercam o cenário, cobertas por luminárias características. A música, por outro lado, em nada remete à época em que se passa a ação. Outros elementos do design de som, como as falas de personagens que não estão presentes (que falariam via telefone ou escondidas atrás de móveis) e os sinos que parecem soar aleatoriamente ao longo da peça, deixam um tanto a desejar. Há de se destacar que, ao menos na noite em que assisti à peça, o som das gravações estava com o volume extremamente alto – algo desagradável, ainda que não comprometa a compreensão da obra.

Preciso fazer um parágrafo sobre a atuação de Hélio Cícero. Em minha há pouco iniciada incursão no mundo do teatro, é a segunda vez que tenho a oportunidade de assistir a uma peça com este grande ator; a primeira foi em O Fingidor, de Samir Yazbek, em que ele protagoniza Fernando Pessoa e seu heterônimo vivo, Jorge Madeira, criado para ser um datilógrafo simples e nada poeta. Vi, portanto, em duas peças, três personagens interpretadas por Cícero (tendo em vista que Jorge Madeira é Fernando Pessoa, mas tem suas próprias peculiaridades, e é, portanto, uma personagem vivida por outra personagem). E é incrível ver como este ator consegue, mesmo mantendo seu timbre de voz natural e seu falar pausado característico, representar papéis tão diametralmente opostos com a mesma alta qualidade. A face de comediante que vi na primeira peça é substituída aqui pela de um homem algo perturbado, incomodado com o fim de seu casamento, mas que parece refrear seus sentimentos até o último instante; um homem que segue sua vida com uma namorada, mas ainda guarda por sua ex-esposa, trancados no âmago, os mesmos sentimentos de outrora.

La Musica é uma boa peça, de curta duração (aprox. 1h), indicada para quem se interessa por conflitos de relacionamento. Um texto não exatamente leve, com algumas frases razoavelmente profundas, num espetáculo que vale mais para observar a performance dos atores do que pelo conteúdo em si.

 
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Publicado por em 21/09/2009 em Resenhas, Teatro

 

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O Cavaleiro da Fruta

Terror. Tragédia. Violência. E muitas frutas para acompanhar.

É isso que te espera no próximo filme do Bátima, como você pode conferir pelo trailer acima. A nova aventura do Cavaleiro das Trevas, que lhe confere até mesmo um novo epíteto, promete mudar os rumos do herói no cinema e estabelecer novos padrões internacionais de texto e enredo.

Com estreia prometida para 10.10.2010, a produção (com time de dublagem brasileiro precocemente escalado) atiça desde já a curiosidade geral e causa euforia em todos, fãs ou não.

Não deixe de conferir.

 
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Publicado por em 08/09/2009 em Besteiras, Multimídia, Resenhas

 

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E Agora, Nora?

E Agora, Nora?Inteligente e inteligível. Dois adjetivos absolutamente apropriados para qualificar a peça E Agora, Nora?, em cartaz no Teatro Augusta até 26 de agosto de 2010 (serviço abaixo).

A peça é um estudo sobre Casa de Bonecas, do dramaturgo norueguês Henrik Johan Ibsen. Esta, escrita originalmente em 1879, trata da hipocrisia da instituição familiar e tem certo ar feminista, dado que a protagonista, Nora, mulher alienada e típica dona de casa, eventualmente apercebe-se de sua condição e decide sair de casa para encontrar a própria identidade. A Cia. Temporária de Investigação Cênica apresenta uma leitura bastante interessante de seu material de suporte.

Algo do clima da encenação já começa a se criar no momento da compra do ingresso, quando recebemos a ficha técnica do espetáculo num formato no maior estilo “Não Perturbe”. Ao entrarmos no espaço cênico, cadeiras pequeninas, como as de bonecas, circundam o local da ação e nos convidam a sentar. Nossa perspectiva das atrizes Joana Dória de Almeida (também diretora), Júlia Novaes e Sofia Boito é, portanto, de baixo para cima, o que engrandece as Noras à nossa frente.

A maçã e o processo de descobrimento (crédito: divulgação)

Após uma abertura musical cantada por uma dona de casa mascarada, algumas palavras surgem iluminadas na parede e inicia-se uma espécie de sistema de produção em série, no qual mulheres-padrão são fabricadas, com seus corpetes repressores e suas perucas artificiais. Ao fundo, o som robótico de mulheres a enumerar produtos que permeiam o viver típico feminino reforçam a ideia da produção em série. E elas lavam, passam, esperam o marido, e tudo parece lindo até que se morde a maçã de Eva – maçã do pecado ou do esclarecimento? E as Noras se deparam com portas e mais portas, a princípio trancadas, mas eventualmente abertas. Por qual seguir?

Elas se livram das amarras dos corpetes (e de sua posição social até então consolidada) e se entregam ao outro extremo, querendo ser homens, se vestindo como homens, fumando seus charutos e virando suas doses de cachaça… mas será isso que elas querem? Ocupar as mesmas posições dos homens e chutá-los de seus lugares? Cansam-se, e chegam ao lugar onde se encontra a mulher atualmente, mais livres que as mulheres de outrora, mais autônomas, mas com uma identidade de fato. E chegam a um desfecho de total exposição ao público, como mulheres com suas próprias histórias e sua autonomia. Como diz uma das atrizes, agora interpretando a si mesma: “meus pais me criaram para ser uma mulher ou para ser uma pessoa?”

Fábrica (crédito: divulgação)

Tudo nos é contado de forma fragmentária, ora pelo texto, ora pelo figurino (trocado constantemente em cena), ora pela iluminação bem sacada que nos direciona o olhar ou se combina com as palavras na parede oposta à entrada. Há até algumas coreografias (com direito a pole dance no início da peça), também bastante signficativas. Há uma linearidade cronológica, que mostra a evolução da mulher na sociedade, mas não cênica. Inúmeras metáforas, com destaque à tal maçã do esclarecimento (que eventualmente se torna um carregamento de maçãs alienantes-pseudo-informativas, a la revista feminina, entuchando Nora com novas “obrigações” e pressões sociais), enriquecem o linguajar da obra sem torná-la hermética, o que considero um resultado altamente satisfatório para o ponto de vista do espectador.

Meu ingresso no mundo do teatro me trouxe a necessidade de explorá-lo, e tenho visto muitas peças desde que fiz a opção por este caminho. Desde então, deparei-me com apresentações absolutamente mastigáveis (como a do musical A Bela e a Fera) e outras que me pareceram intencionar um eruditismo desmedido, típico dos “gênios auto-intitulados”, o que as tornava extremamente herméticas. O espetáculo da Cia. Temporária de Investigação Cênica foi o primeiro a que assisti que encontra o ponto de equilíbrio, permitindo uma ginástica cerebral sem comprometer a inteligibilidade da peça. Parabéns às meninas-mulheres!

[EDIT: a peça reestreia em 07/07/2010, e o serviço abaixo foi atualizado]

Serviço

Local: Teatro Augusta – R. Augusta, 943 (50 lugares)
Fone: 3151-4141
Preço: R$ 25 (inteira), R$ 12,50 (meia)
Datas: de 7 de julho a 28 de agosto de 2010
Horário: quartas e quintas às 21h

Ficha técnica

Dramaturgia: Cia. Temporária de Investigação Cênica
Concepção e Direção: Joana Dória de Almeida
Elenco: Joana Dória de Almeida, Júlia Novaes e Sofia Boito
Assistente de Direção: Diogo Spinelli
Intervenções Poéticas (Samplers dramatúrgicos): Roberta Estrela D´Alva
Orientação: Cibele Forjaz
Desenho de Som: Pedro Semeghini
Desenho de Luz: Sofia Boito
Cenário e Figurinos: Cia. Temporária de Investigação Cênica
Vídeos: Carolina Mendonça e Fernanda Gomes

 
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Publicado por em 23/08/2009 em Resenhas, Teatro

 

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A Bela e a Fera em São Paulo

A Bela e a FeraDomingo passado (12/07) fui assistir ao musical A Bela e a Fera no Teatro Abril, e resolvi compartilhar hoje minhas impressões sobre a peça.

Começo descrevendo o teatro. Inaugurado em 1929, o então cine/teatro Paramount sofreu grandes danos devido a um incêndio em 1969. Foi reconstruído, fechando, no entanto, suas portas 27 anos depois. Em 2000 iniciaram-se novas reformas, e creio que foi então que seu nome mudou para Teatro Abril (nada consta no site do teatro a esse respeito). O foyer, de arquitetura em estilo art nouveau, é espantosamente bonito, e abriga os (muito caros) lanches, pipocas e merchandising. Cara, cobravam 50 mangos numa camiseta com o logo da peça!

Bom, à peça em si. Que produção. Faz sentido o valor que cobram pelos ingressos. Vários cenários enormes e móveis, atores/cantores muito competentes, figurinos impressionantes (que, pelas reportagens a que assisti, nunca são lavados – quando necessário, sofrem um processo de higienização com… vodka O.o)… enfim, não foi à toa que os ensaios começaram alguns meses antes desta reestreia (sim, porque o musical estreou por aqui em 2002). Só não me atraiu tanto a temática, bastante infantil (como é de se esperar de uma produção Disney).

Os protagonistas Lissah Martins e Ricardo Vieira

Os protagonistas Lissah Martins e Ricardo Vieira

Devo fazer alguns comentários em relação a Ricardo Vieira, que faz a Fera. Alguns colegas do conservatório onde eu estudava, alunos de canto, e um professor de lá, assistiram ao espetáculo no começo da temporada (há um mês ou dois) e desceram a lenha no cara como cantor. Não sei se ele aprendeu muito ao longo desta temporada, ou se estava num dia excepcional, mas para mim ele se mostrou um cantor bastante afinado e suficientemente competente – ainda que mostrasse algumas imperfeições técnicas, não achei em momento algum que isso comprometesse a apresentação. O porém, para mim, curiosamente, foi no que diz respeito a sua atuação, que achei pouco dinâmica, em especial em relação às falas. Sem contar que ele é evidentemente tenor, com uma voz leve pacas, e ouvir uma voz levinha vinda de uma “fera terrível e enorme” é um tanto quanto frustrante. Um barítono passaria mais facilmente uma impressão de bestialidade e fúria, mais adequada à personagem (não digo para colocarem um baixo por causa das músicas que ele canta, com notas numa região aguda demais para a tessitura normal de um baixo).

O que ficou bastante evidente para mim foi a diferença que faz ter experiência neste meio. Ainda que os atores mais novos tenham sido bastante competentes, aqueles que já possuíam maior bagagem roubaram as cenas. Cito em especial Marcos Tumura (Lumière), Paula Capovilla (Sra. Potts) e Roberto Rocha (LeFou) – excelentes tanto em termos de atuação quanto como cantores. A Babette de Gianna Pagano também me atraiu bastante a atenção, ainda que não fosse uma personagem com tanto destaque.

Cena do jantarA cena do jantar é um show à parte. Uma coreografia com diversos bailarinos, música com variações bruscas de andamento, tudo muito sincronizado e bem-feito sob figurinos aparentemente pesados e de difícil uso, sem contar os incríveis efeitos pirotécnicos.

De modo geral, é um espetáculo que vale a pena ver. São tantos aspectos positivos que a história não chega a ser um real problema para aqueles que gostam de peças mais adultas. Aproveite que a temporada foi prorrogada até 1º de novembro e vá assistir! Informações sobre horários e preços de ingresso aqui.

P.S.: Obrigado à Josi por me avisar que a temporada foi prorrogada!

 
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Publicado por em 15/07/2009 em Música, Resenhas, Teatro

 

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