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O véu

Um branco pastoso turba minha visão. Mas não se engane: meus olhos ainda captam bem as formas e cores refletidas pelos corpos do mundo. Sou um cego que enxerga.

As formas difusas que vejo às vezes me parecem tão próximas… mas aquelas que eventualmente alcanço, que necessitam de manufatura, levo longo tempo para esculpir.

Eventualmente caem pedaços de lógica nessa espécie de leite à minha frente; eles abrem um espaço pelo qual, em breve instante, enxergo com mais nitidez. Enxergo um relógio: marca 2h50, e corre. Ele conta as horas. Os dias. A vida.

Uma lógica de Sherlock me serve de óculos. Ao caçar, na arte, significados e subtextos, detalhes essenciais, sinto como se enxergasse novamente. Intensifica-se por dentro, num átimo, o que outrora era frequente.

Não há como pagar uma cirurgia corretiva. Não agora. Quem sabe um dia, quando ocorrer a fusão de sonho e realidade…

 
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Publicado por em 24/03/2010 em Reflexões & Filosofia

 

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A primeira audição

A maioria de vocês já deve ter ouvido falar da estória d’O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, que conta como o dr. Henry Jekyll, numa tentativa fracassada de separar e isolar a essência maligna do ser humano, usando a si mesmo como cobaia, libertou de si um alter ego, Edward Hyde, uma terrível criatura assassina que era nada mais que todo seu “lado ruim” concentrado num único ser. O livro foi adaptado para o teatro na forma de um musical, Jekyll & Hyde, que estreou na Broadway em 28 de abril de 1997, no Plymouth Theatre. Doze anos depois, resolveram trazer esta excelente peça para os palcos tupiniquins.

Há cerca de um mês me inscrevi para as audições desse musical, através do site oficial. Preenchi uma ficha que incluía, entre outras coisas, meus trabalhos prévios em teatro/canto/dança e nível de experiência em cada uma dessas áreas; ali também precisei indicar para qual personagem gostaria de prestar. Minha escolha foi Spider (no vídeo acima, o cara que aparece aos 3’02″), cafetão de uma das personagens principais, Lucy – um papel pequeno que supus estar de acordo com minha pouca experiência nesse mundo do teatro.

Arte visual original do espetáculo, aqui empregada na capa do CD com o elenco original da Broadway

Domingo passado a produção me ligou para marcar a audição. Para mim isso já foi uma vitória, já que, creio, nem todos os inscritos são convidados para os testes (suponho que haja uma pré-seleção das fichas cadastradas pelo site). Mas fui pego de surpresa, já que a produção divulgou há menos de uma semana as músicas que poderiam ser cantadas nesta audição – acreditava que teria ao menos um mês para preparar as duas músicas que escolhi. Primeira lição: eles querem que você já esteja pronto no ato da inscrição, não que você se prepare nos momentos anteriores ao teste.

Bom, marcamos meu teste para esta terça. Ou seja, tive domingo à tarde e segunda-feira à noite para ficar “no ponto” para o teste (na segunda fui ajudado pela minha querida professora de canto, que arranjou um horário em cima da hora para fazermos uma aula). Isso sem contar a construção das personagens que cantam originalmente as músicas escolhidas, atividade que ocupava meu cérebro quase todo o tempo, totalizando aproximadamente 49 horas de preparação. E lá fui eu para meu primeiro teste de verdade – “de verdade” porque já tinha feito um numa aula do conservatório, com banca composta por algumas pessoas conhecidas do meio, como o Luciano Amaral (o Lucas Silva e Silva de O Mundo da Lua), a Jana Amorim (bailarina e cantora que participou d’A Bela e a Fera, musical que já resenhei por aqui) e o Ricardo Marques, mas foi uma “aula de como fazer audição”, não uma audição propriamente dita.

O teste aconteceu no Espaço 10×21, no bairro de Perdizes, São Paulo. Mal cheguei, fui avisado que nós, candidatos, cantaríamos a princípio apenas uma música (não duas, como pedido via e-mail), e que só cantaríamos a segunda se nos fosse pedido. Escolhi a que ensaiara mais no dia anterior e cuja tessitura condizia mais com o personagem para o qual estava prestando.

Chegada minha vez, entrei, combinei minha audição com o pianista, fui para a marca e esperei que me permitissem começar. Vale um parênteses aqui: é engraçado como fiquei muito mais nervoso antes de ir para o Espaço 10×21 do que quando estava em frente à banca. Enfim, perguntaram que música eu cantaria e logo comecei com a primeira parte do solo de Quasimodo em “Lá Fora” (essa aí embaixo, versão em português de “Out There”, do filme e do musical O Corunda de Notre Dame).

Foi tudo muito rápido. A música saiu com facilidade (graças, em parte, à excelente acústica do lugar), mas certamente meu nervoso era visível aos olhos daqueles experientes profissionais, e minha pouca experiência como ator era evidenciada pela timidez dos gestos que acompanharam minha voz. Acabou a música, o diretor agradeceu com um leve sorriso e eu me retirei. Sem segunda canção nem nada.

Ficou bastante claro que não ganharei um papel. Sempre ouvi dizer, e sempre me pareceu muito crível, que quando uma banca de audição gosta de você ou acha que você se encaixa no perfil que procuram, pedem que você ou cante completa a música cujo trecho escolheu, ou que cante sua segunda opção, e se realmente gostarem do que foi mostrado lhe dão algumas indicações sobre a segunda fase de testes (ou callback). Que fique claro: não fui maltratado, ninguém ali se comportou de maneira rude – muito pelo contrário, fui recebido com simpatia -, mas creio que estavam todos cansados e sem tempo para bater papo.

De qualquer forma, me sinto bem. Meu objetivo maior desta vez era uma espécie de reconhecimento de terreno,  saber como é a audição para um grande espetáculo. Qualquer coisa além disso teria sido um grande lucro. Não tive receio de me “queimar” com o diretor porque acredito já ter uma voz suficientemente preparada para não ser visto como um “aventureiro sem noção”. E consegui o que queria: experiência para ir melhor nas próximas tentativas, nas quais já terei mais conhecimento e prática como ator e como cantor para poder pleitear, efetivamente, um bom papel numa montagem de bom porte.

 
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Publicado por em 11/11/2009 em Música, Teatro

 

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Luz

Silêncio. Ouve-se apenas um coração batendo. Mãe e filha estão abraçadas no canto de uma sala branca – a consciência da criança.

MÃE
Ai, estou tão ansiosa! Não deve faltar muito pra você chegar… Já tá na hora, né? Agora vamos passear. Vou com uma roupa bem bonita, na hora quero estar arrumadinha pra você!

(pausa) Você está tão quietinha… Não se mexe desde ontem… não assusta a mãe, não, viu!

(para o pai) Olha, avisa minha mãe que a mala está preparada em cima da cômoda… algo me diz que de hoje não passa.

PAI (apenas a voz)
Não se preocupe, já avisei. Agora vamos, tão esperando a gente.

Ouve-se o barulho de uma porta se fechando e sendo trancada. (Pausa)

MÃE
Ai… to sentindo… acho que vamos ter que mudar nossos planos, amor.

A criança se levanta e começa a caminhar para longe da mãe, em direção a um novo foco de luz. Surgem dois espíritos de formas femininas ladeando o bebê.

ANJO PROTETOR
Chegou a hora. Está vendo aquela luz? É o mundo. É para lá que tu vais.

O OUTRO
Mas cuidado, que lá a coisa muda.

CRIANÇA
Muda como?

O OUTRO
Lá não é quentinho, muito menos aconchegante. Aqui é seguro, lá não.

ANJO
Mas lá aprenderás coisas novas, vais poder interagir com outras pessoas que têm o mesmo objetivo que ti.

A mãe começa a respirar intensamente, preparando-se para o trabalho de parto.

CRIANÇA
Vai doer?

O OUTRO
Sempre dói. E vai doer para sempre.

ANJO
A dor é parte do caminho, mas não é o mais importante. Ela sempre resulta em crescimento e te deixa mais forte. E se ficas mais forte, sentes menos dor.

O OUTRO
Mas sempre haverá uma dor maior que a anterior. E você vai sofrer. Ninguém lá fora é bonzinho como sua mãe. Não demora e você já vai perceber isso. A violência começa logo de cara: o primeiro momento é cheio de sangue, tapas e choro.

CRIANÇA
Ai… eu não quero ir pra lá!

ANJO
Não te preocupas. O sangue que vais ver é o que te manterá viva, o que te liga a teus pais durante toda essa viagem que começa agora.

O tapa que virá daqui a pouco vai te ajudar a respirar, porque lá fora tua mãe não vai poder te dar o ar. E isso é bom! É aí que você começa a ter tua própria força.

CRIANÇA
E o choro? Já to sentindo minha mãe chorando…

ANJO
As lágrimas? São de alegria! Teus pais estão te esperando há muito tempo, estão muito ansiosos, querem tê-la ao alcance dos braços.

O OUTRO
Para lhe dar ordens e comandar sua vida…

ANJO
Para te guiar e te ajudar no começo da caminhada, até que você consiga andar com tuas próprias pernas.

O OUTRO
Mesmo quando isso acontecer, eles vão continuar lhe dando ordens e comandando sua vida. Ou talvez te larguem e esqueçam que é filha deles, ou talvez nem se importem. E se agora você for só o brinquedo favorito? E quando deixar de ser?

ANJO
Toda dúvida é válida, mas não deixes que conjecturas te amedrontem e comandem a vida que começa agora. Saiba que neste momento tua mãe te alimentará e te protegerá, e vai se esforçar para que continues tão bem quanto estava aqui. E quanto ao que quer que aconteça depois, saiba que não encontrarás desafio nenhum que não possas suplantar.

CRIANÇA
Puxa… será que eu vou conseguir passar por isso? Parece tão difícil…

O OUTRO
Se prepara…

ANJO
(cortando o Outro) Acredita que sim. Agora vai, que está na hora. Estarei contigo, mesmo que não me vejas, mesmo que me esqueças. E quando precisares de mim, saibas que não te deixarei sozinha.

O OUTRO
Eu também estarei com você, para que você nunca se esqueça dos problemas do mundo. Você precisa tanto de mim quanto dela; sem uma de nós duas não há equilíbrio, e sem equilíbrio sua viagem não terá sentido.

O bebê finalmente chega ao foco de luz.

CRIANÇA
E agora… eu sou?

Obs.: Este texto foi apresentado no EPA – XVII Encontro de Artes da Escola Superior de Artes Célia Helena, em 24 de outubro de 2009. A ficha técnica da apresentação encontra-se aqui.

 
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Publicado por em 24/10/2009 em Teatro

 

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O Tempo

Tentativa de colocar o tempo numa imagemQuanto tempo dura um tempo? Qual o prazo para um conhecimento raso evoluir para um profundo? E por que é tão difícil abrir mão de seu próprio tempo em nome do alheio?

Talvez essas questões me perturbem porque sinto um enorme anseio em olhar através do impenetrável véu do futuro. Ver minhas necessidades e vontades satisfeitas no meu prazo, no meu próprio tempo. Mas o tempo da vida e o tempo das outras pessoas é diferente do tempo do meu pensamento. E essa ansiedade de ver o relógio correr mais rápido fere a alma pouco a pouco, como uma brasa a acariciar a pele, removendo-lhe camada após camada, rumo ao âmago.

Preciso aprender a beber na fonte da paciência. É ela que apaga a brasa e afaga a pele. É ela que permite às feridas curar-se, deixando as experiências mais resistentes, válidas, completas e, porque não, verdadeiras. Permite-lhes ir ao fundo mais fundo, onde brasa alguma pode chegar.

A letra abaixo é de uma música minha, versão em português (a original é em inglês), que fala um pouquinho disso. Se quiser escutá-la, basta acessar www.myspace.com/thiagoschiefer.

Frantic (ainda não tem nome em português)

Lívida em carmesim
Queima-me a alma sem fim
Pressão crescendo em mim
Pra vida andar mais depressa

Nervoso, conto as horas
Tento olhar o futuro
Quero correr o tempo
Rápido, acelerar!

Respira,
O amanhã não há como saber
Sinta a vida!
Deixe-a se mostrar a ti

Pressa
(Correr contra o mundo)
Ansiedade
(Ter que esperar)
ou calma
Devo esperar

Com minha alma a queimar
Ao que se tem a me dar
A pressão há de parar
Levando a vida na paz

Respirar enfim
O amanhã não há como saber
Sinta a vida!
Deixe-a se mostrar a ti

Pressa
(Correr contra o mundo)
Ansiedade
(Ter que esperar)
ou calma
Devo esperar

 
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Publicado por em 30/08/2009 em Reflexões & Filosofia

 

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