Se existe um movimento que eu curto nas artes plásticas, é o Surrealismo. E se, dentro deste movimento, tem um pintor que eu possa apontar como favorito, sem dúvida nenhuma é René François Ghislain Magritte.
Acho que o grande barato do Surrealismo, e especialmente da obra deste senhor belga nascido em 1898, é que os quadros são como fotografias de sonhos. Como nos sonhos, tudo é muito real, quase palpável, mas as coisas misturam-se de uma forma totalmente irreal (eu até poderia dizer também “ilógica”, mas sempre há uma lógica por baixo dessas doideiras).
Magritte tinha algumas marcas registradas, elementos que aparecem em várias de suas obras. Várias delas são a vista através de uma janela; outras tantas apresentam uma maçã verde, e algumas ainda contam com uma esfera dotada de uma fenda horizontal (dizem ser um daqueles sininhos de trenó, mas sei lá se são mesmo).
A maçã, em dois bons exemplos, talvez possa ser interpretada como o pecado. É uma interpretação bem tradicional, mas nestes casos me parece bastante convincente: em O filho do homem (acima), vemos um homem com o rosto coberto pela maçã – talvez possa-se pensar que o homem é encoberto pelo pecado, fruto seu; e mais evidentemente em O padre casado (abaixo), duas maçãs equipadas com máscaras, dois pecados escondendo-se do mundo.
Já a esfera horizontamente cortada (ou o sino, se formos seguir o consenso) é a que mais me intriga, desde algum tempo. Na maior parte dos casos, remete-me à modernidade, às máquinas – talvez porque as obras em que aparecem com mais evidência chamem-se O autômato I, O autômato II (ambas abaixo) e A voz do espaço. Acho muito curiosa a aparição desta figura na obra Memória (de 1948, ao lado), em que aparece ao lado de uma cabeça típica de esculturas clássicas que sangra. Parece que a esfera foi arremessada contra a cabeça, ferindo-a, e observamos o resultado. Será um recado de que o moderno “venceu” a arte clássica, a “memória” de tempos passados?
Essa habilidade de provocar o raciocínio é o que mais me fascina na obra de Magritte. Ela permite ao observador tirar uma série de conclusões a respeito deste ou daquele quadro, sem que haja necessariamente uma conclusão “correta” – afinal, são representações do subconsciente. E no plano do subconsicente não existem verdades absolutas.





