O som da orquestra, do piano ou do violino solo me traz de volta ao mundo terreno. Após a prece e a higiene matinais, meus olhos tentam vencer o peso da noite passada, só para se depararem com outros, seus iguais, retribuindo-lhes o olhar sob sobrancelhas ruivas – ou loiras, não sei ao certo. O caloroso beijo materno me acorda enfim, e a vitamina de banana, acompanhada sempre por algum pão devidamente complementado, mantém-me sustentado por cerca de três horas (talvez um pouco menos).
O caminho conta com trechos a pé, de metrô e trem, os últimos interligados por uma van eventualmente conduzida por alguém que desejaria ser protagonista de alguma continuação de Velozes e Furiosos. Chego ao trabalho, onde nove horas do dia serão de alguma forma consumidas – oito delas de olho em luzes que insistem em mudar de cor, como se movessem-se, a cada clique ou toque de uma tecla. Dedos na tela ainda não adiantam para mais do que sujá-la, ainda que tal realidade esteja em vias de mudança.
A bem-vinda pausa, quatro horas depois, é servida de carnes, cereais, salada, algum molho e certo toque de filosofia e cotidiano compartilhados entre eu e a grande amiga e colega na lida. Sempre com um olho no relógio, porque a vida de jornalista – dela – é dura e corrida.
Espelha-se o dia. Batem as dezessete e tomo o trem, a van, o metrô e aquele trajeto a pé. A higiene, o beijo materno, a refeição. Encontro alguma forma de gastar o tempo, ao menos enquanto não começa um curso nem surge um freela, até que Orfeu chame. A oração encerra o dia.
Dal segno al Coda.
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