
Há faces do horror que este homem não colocou nos livros
Voltei há pouco de uma estimulante montagem teatral sobre Edgar Allan Poe. Acompanhado por duas amigas, assisti à peça no porão do Centro Cultural São Paulo, e me animo por ter entendido metade do que foi passado!
Mas este post não é sobre a peça, nem sobre o Centro Cultural, nem sobre as minhas amigas. É sobre o Seu Milton. Após o jantar, enquanto elas e eu papeávamos para passar o tempo (já que a peça começaria apenas às 21h), sentados num banco ali onde o complexo arquitetônico se junta à rua, ele se aproximou.
A barba por fazer, a roupa azul e branca (mas não tão branca assim), o boné na cabeça, o saco preto numa das mãos. A fala, nem sempre inteligível. Provavelmente ébrio. Seu Milton pediu ajuda. Não disse que queria dinheiro, apenas pediu ajuda. Desacostumados a sentir na pele a faca velha e enferrujada da realidade, não sabíamos bem o que fazer. Uma de minhas amigas tentou afastá-lo, dizendo que estávamos conversando (e querendo dizer que ele incomodava). Seu Milton não se deu por vencido, e continuou com sua fala de difícil compreensão. Insistia que não estava mentindo, que era verdade o que dizia, que o haviam roubado e ele tinha perdido tudo. Puxou do bolso um papel rasgado e amarrotado, onde pude ler algo sobre “extravio de bens” – aquilo era sua forma de comprovar a veracidade de seu discurso.
Notando o precário terço que Seu Milton carregava pendurado ao pescoço, ofereci-lhe a única coisa que considero certo dar a um pedinte: o que eu pudesse colaborar em conforto espiritual. Uma oração. Penso que a esmola em dinheiro, além de tudo que sempre ouvimos (“Ele vai comprar pinga ou outras drogas”), é uma maneira de colaborar para a permanência do mendigo na rua, evitando que ele procure meios mais edificantes de juntar dinheiro e reerguer-se socialmente. Chamem de pensamento burguês, se quiserem, mas realmente creio nisso. O homem olhou-me, com ar dúbio, e num gesto de desagrado e decepção puxou a cruz do terço para frente, arrebentando-o (creio que acidentalmente, dado seu estado).
Edgar Allan Poe falava muito de morte, escreveu contos fantásticos com inúmeras maneiras de se matar uma pessoa. Não me lembro de ter passado os olhos por um conto seu que falasse da morte interior. Seu Milton estava morto por dentro, embora seu corpo ainda vivesse. O gesto com o terço, intencionalmente ou não, mostrou que ele não acreditava mais em Deus, nem numa força motriz. Por que acreditar num Ser que tirou tudo de mim? Talvez pensasse isso. Mas mesmo para os ateus e pessoas de outras religiões, creio ser compatível pensar que o gesto mostrava o desapego pela vida em si. Este homem vive por inércia, sem um motivo. E sem motivo, não vivemos, apenas existimos.
Seu Milton não aceitou nossa prece, e se foi para outras paragens, murmurando, gritando meu nome (por educação e pena eu o tinha dito, oferecendo-lhe um mínimo de conversação) até perceber que não reagíamos mais a ele. Emudeceu-se e continuou seu movimento, e provavelmente jamais saberei que fim levará. E formou-se uma ferida causada pelo fio cortante de uma realidade que teimamos em ignorar. E essa ferida vai cicatrizar. E a cada nova ferida cicatrizada, formar-se-á e se reforçará um calo, até que eu seja mais um corpo resistente aos murros que o lado triste da sociedade desfere para chamar nossa atenção, para tentar clamar por ajuda. Como abrir os ouvidos para esses gritos? Como ajudar sem colocar-se num abismo privado de luz, preservando a si mesmo e erguendo os outros? O que podemos fazer? O quê, meu Deus? O quê?
Você já teve uma amizade nociva? Eu já.