Há cerca de 3 semanas, fiz uma apresentação no meio do EPA, um evento do Teatro Escola Célia Helena que reúne os vazamentos artísticos dos alunos.
Toquei quatro músicas bem deprê no meio de uma instalação bem bacana que a Bárbara Mazzola compôs comigo. Antecedendo a porta da sala onde toquei (devidamente maquiado numa variação do Pierrot), poemas sobre a Melancolia pendiam do teto.
O público tinha sido convidado a experimentar corporalmente durante as músicas. O resultado foi bem… catártico, eu acho.
Lá pros idos de 2007 eu gravei minha primeira música solo, Der Krieg (alemão para “a guerra”), que estreou minha página no MySpace. Não posso dizer que hoje eu saiba muito sobre mixagem, mas naquela época eu não sabia nada.
Recentemente, no entanto, participei de uma montagem com meu grupo do Célia Helena e nosso diretor gostou da ideia de usar esta música na trilha sonora, já que ela é tão doida quanto foi o próprio espetáculo. Mas eu não podia simplesmente entregar-lhe aquela primeira versão, ruim como estava, então decidi regravar. Aproveitei e enxuguei a composição, usei plugins melhores e adicionei uma linha melódica no final que, na minha opinião, ficou bem legal! E estreei meu novíssimo baixo Cort B5 na gravação (esse da foto).
Então, por favor, confiram o resultado no meu MySpace e comentem!
Semana passada fui assistir ao musical Jekyll & Hyde – sim, aquele mesmo para o qual fiz audição há um ano.
O espetáculo já começa a envolver o espectador antes mesmo de começar: no foyer é distribuído um programa simplificado cuja capa imita um jornal da Londres do século XIX, situando-nos na época em que se passa a ação; uma vez dentro do teatro, há um barulho de chuva ininterrupto, que colabora para nos colocar “no clima” da peça. Resumidamente, ela fala sobre Henry Jekyll, um cientista que deseja inventar uma fórmula para separar os lados bom e mau do ser humano, para poder liquidar a maldade no mundo e, com isso, salvar seu próprio pai da loucura (a qual ele crê dever-se a seu lado mau). Leva a proposta aos dirigentes de um hospital, pedindo permissão para fazer de alguns pacientes suas cobaias, mas seu pedido é prontamente rejeitado, o que o leva a conduzir seus experimentos consigo mesmo. E por aí vai.
Kiara Sasso no papel de Emma
Logo de cara já é possível perceber que o forte desta montagem é a música: acompanhados por orquestra e banda, os cantores mostram um desempenho absurdo do começo ao fim, com merecido destaque aos protagonistas Nando Prado (Jekyll/Hyde), Kacau Gomes (Lucy, a prostituta) e principalmente Kiara Sasso (Emma, noiva de Jekyll).
A performance vocal, os belos efeitos especiais (incluindo chuva e fogo, que contribuíram para alçar o orçamento da montagem aos 6 milhões de reais) e os incríveis figurinos de Fause Haten são, na maior parte do tempo, o bastante para encobrir o desempenho não tão bom em termos de atuação. Claro que não podemos esperar uma interpretação puramente realista num musical, simplesmente porque em realidade as pessoas não cantam para comunicar tudo o que querem, mas em diversos momentos é fácil perceber que boa parte dos cantores apenas decorou suas marcas, sem a preocupação de deixá-las orgânicas – em diversos momentos a movimentação e os gestos simplesmente não convencem. Exceções notáveis a isso são a própria Kiara Sasso (para mim, a estrela maior do espetáculo) e Nando Prado, especificamente na cena em que discute consigo mesmo (Jekyll vs. Hyde), num trabalho de corpo que impressiona. Nem preciso dizer que, atuando bem ou mal em termos gerais, Nando é infinitamente superior a David Hasselhoff, que “interpretou” o papel principal na Broadway.
Kacau Gomes como Lucy
Jekyll & Hyde é uma peça de entretenimento. Não sei se por estar muito acostumado à história, saí do teatro sem grandes reflexões – mas creio não ser este o objetivo do espetáculo. Uma curiosidade, porém, vale destacar: durante os aplausos, Kacau Gomes foi a mais ovacionada, com berros emocionados vindos de todas as partes, o que corrobora aquela ideia de que geralmente o público se identifica mais com a personagem-pária-social do que com os “mocinhos”. É para se pensar (fique à vontade para comentar sobre o assunto aqui se tiver alguma ideia do porquê disso).
Ah, em relação a eu ter feito audição para esta peça e não ter passado: eu realmente não havia atingido a maturidade vocal necessária para fazer um musical deste porte na época da audição (e me pergunto se hoje já consegui atingir o mínimo necessário). Engraçado, porém, que o personagem Spider, para o qual eu tinha audicionado, foi simplesmente limado da peça – nas poucas aparições que faria, foi substituído por Stride, o pretendente ciumento que perdeu Emma para Jekyll. E mais uma coisinha: no post que escrevi sobre a audição eu disse: “Não tive receio de me ‘queimar’ com o diretor porque acredito já ter uma voz suficientemente preparada para não ser visto como um ‘aventureiro sem noção’”. Aí eu descobri que o diretor é Fred Hanson, que participou da produção de alguns musicais gigantes na própria Broadway. Hehe.
Serviço Local: Teatro Bradesco Endereço: Rua Turiassú, 2100 – Bourbon Shopping, 3° piso – São Paulo Horários: quinta, 21h; sexta, 21h30; sábado, 17h e 21h; domingo, 18h Preços: R$ 40,00 a R$ 190,00 (mais detalhes no site do teatro, link acima) Data: até 17 de outubro de 2010
Quando comecei a me interessar de verdade por musicais (ao ponto de querer trabalhar com isso), as audições para O Despertar da Primavera mal haviam se encerrado. Eu não poderia mais me inscrever para tentar um papel na peça, mas tive a excelente oportunidade de acompanhar pela primeira vez o processo de montagem de um musical desde o começo, ainda que de fora e sob a visão dos assessores de imprensa da dupla Möeller & Botelho - responsável pela versão nacional do musical da Broadway. Só falta ver o resultado final.
Mas por mais que eu não tenha ainda assistido à coisa feita, a obra é definitivamente assunto a se tratar. Escrita em 1891 pelo ator, romancista e dramaturgo alemão Frank Wedekind (precursor do Expressionismo no teatro), a peça que deu origem ao musical joga na cara do espectador uma série de tabus, como “o florescer da sexualidade, o incesto, suicídio e a opressão seja na família, no sistema educacional ou na igreja” (como diz o site de Möeller & Botelho) – e justamente por isso teve enorme dificuldade em ser montada, tendo sofrido proibições e censura em mais de um país até que conseguisse, em 1974, ser encenada profissionalmente e sem alterações. Mas vou evitar girar em torno de tudo aquilo que você pode ler no site deles ou nos inúmeros outros que falam sobre a montagem (como o da Bravo!).
Inúmeros. Inúmeros sites e inúmeros fãs. Eu honestamente nunca tinha visto um musical com tanto apelo popular, ao menos nesses poucos anos em que tenho acompanhado essa história de musicais. E o mais curioso é que, pelas leituras que fiz, a peça parece ser extremamente forte, o que costuma trazer alguma espécie de reflexão para a plateia. E, convenhamos, o público brasileiro não está muito acostumado a ser chamado à reflexão, de tão bombardeado que é por informações vazias e entretenimento fácil. O diretor Charles Möeller e o letrista Claudio Botelho conseguiram um tremendo feito ao massificar uma montagem com essa característica, ao ponto de conseguir-lhe uma segunda temporada em São Paulo.
Letícia Colin, Ilse na peça: o aflorar da sexualidade é um dos temas tratados (foto: site Möeller & Botelho)
Vou no caminho já trilhado por outros textos ao dizer que provavelmente esse sucesso todo veio pela atualidade (ou talvez atemporalidade) do texto. Os jovens de hoje podem ter uma liberdade infinitamente maior do que a dos jovens de 1891, mas continuam com angústias e dúvidas muito parecidas. É na adolescência que as máscaras do mundo começam a cair, que as coisas deixam de ser tão cor-de-rosa, e por um bom tempo ficamos tentando discernir quanto do que aprendemos é verdade e quanto é manipulação ou imposição social, quais regras podemos quebrar, o que somos de fato (para nós e para o mundo) e até que ponto somos livres. No auge de meus 24 anos, algumas dessas dúvidas foram sanadas, outras permanecem, novas certamente surgirão e algumas provavelmente voltarão (eu e algumas amigas discutimos sobre esses assuntos no blog Aos 24…). E é disso que a peça (e consequentemente o musical) trata, mergulhando no íntimo de personagens cujas idades vão dos 14 aos 25 anos e escancarando o que se passa em suas mentes quando estão presos entre os tijolos das instituições (lar, escola e igreja) ou quando estão livres na natureza de uma floresta – metáfora cênica inteligente para a liberdade da natureza humana.
Bom, muita teoria. E teoria prende. Me falta agora aproveitar a reestreia paulistana para ver, na prática, quanta força tem esse soco no estômago que parece ser O Despertar da Primavera, e quão libertador ele pode ser.
Serviço
Local: Teatro Frei Caneca Endereço: Rua Frei Caneca, 6º andar (Shopping Frei Caneca), 569 – Consolação – São Paulo, SP Horário: sábados, às 18h; domingos, às 20h, e segundas às 20h30 Preço: finais de semana, R$ 70,00; segundas, R$ 50,00 (valor da inteira) Data: até 15 de agosto de 2010
Abril de 2003. Naquela noite aconteceria o show de uma de suas bandas favoritas, daqueles com gravação de DVD e tudo. A maior parte de seus amigos não era grande fã da banda, então Rafael iria com uma amiga que conhecera pela internet. Calma, calma: já tinham se encontrado pessoalmente antes, portanto nada mais seguro.
O dia arrastou-se, viscoso, até que se aproximasse o horário de ir ao show. Trajando-se de maneira apropriada para a ocasião, o adolescente finalmente chegou à grande casa de espetáculos, onde a amiga o esperava desde as 14h, acompanhada da irmã.
Foi quase um susto. Joana, a amiga, não era exatamente uma mulher bonita, nem sequer tinha um quê atraente. Sua irmã, no entanto, encontrava-se no extremo oposto da esfera da beleza: dois anos mais velha, a morena atraía olhares de todos os roqueiros próximos. Ainda assim, não fazia muito o tipo de Rafael.
O rapaz, porém, sempre cortez, percebia que a agitação dos outros jovens incomodava a moça: pulavam tanto que constantemente esbarravam nela. Como homem, deveria protegê-la, e assim fez: envolveu seus ombros com o braço esquerdo, evitando que os ogros próximos continuassem a incomodá-la. Ela percebeu.
Caminharam assim abraçados até entrarem na pista. Ela podia não fazer seu tipo, mas certamente o toque de seu corpo contra o dele provocava-lhe uma sensação agradável. Ela parecia igualmente confortável, de modo que permaneceram igualmente próximos enquanto esperavam pelo início do show. Joana, que vinha à direita de Rafael, observando o comportamento do amigo com a irmã, tomou-lhe a mão e começou a acariciá-la. “O que ela está fazendo?”, ele pensava, ainda que não achasse nada mal estar cercado por duas mulheres – sentia, talvez subconscientemente, que instaurava-se um clima de disputa entre as duas irmãs, e isso massageava seu ego masculino.
O início do show veio como uma enorme rocha despencando sobre o mar. Os três estavam muito próximos do palco, e a agitação do público em ondas quase os derrubava: moviam-se independentemente de sua vontade, os corpos inclinando-se a graus perigosos, a queda tornando-se quase iminente. Joana passa mal, e o trio se vê forçado a afastar-se dos músicos, rumo a um espaço mais vazio e mais seguro.
Com mais espaço, não havia necessidade de ficarem os três grudados. E assim Joana ficou um pouco mais à frente da irmã e de Rafael, que, no entanto, continuavam abraçados. Hormônios rugiam no corpo do rapaz a cada movimento que aquela linda mulher fazia ali, tão terrivelmente próxima. Ecoavam em sua mente as palavras que ouvira a vida toda: “Você pensa demais”, “Você deveria ter ido mais rápido”. Ali, não havia o que pensar. Ela estava lá, grudada nele há mais de uma hora, e eles tinham acabado de se conhecer.
Ele conhecia o repertório. E na hora certa, na música certa, sob os olhares tristes e raivosos de Joana, aconteceu.
Chrono Cross foi um jogo de videogame desenvolvido pela Squaresoft (hoje Square-Enix) em 1999/2000 para o Playstation, como sequência para um dos mais conhecidos RPGs da empresa, Chrono Trigger. Não chega nem aos pés de seu antecessor na maioria dos aspectos, em minha humilde opinião, mas em trilha sonora merece seu destaque.
A faixa de abertura, originalmente, tem fortes influências celtas e passa longe da pegada jazz/fusion meio épica, meio futurista característica da trilha de Chrono Trigger. Mas sempre senti que ela tinha vocação para heavy metal, então fiz-lhe uma versão mais “temperada”, puxada na distorção, que você pode conferir acima.
Se gostar, pode entreter-se também o que fiz com três temas de Chrono Trigger há algum tempo, na mesma linha:
Ballet é uma dança que atraiu minha curiosidade há pouquíssimo tempo. Mas com o início dos meus estudos de artes cênicas e minha vontade de trabalhar no ramo de musicais (que exige, em boa parte das produções, que os artistas cantem, dancem e atuem), comecei até a considerar fazer aulas de ballet. Evidentemente, antes de fazer, precisava conhecer direito – e, com esse intuito, fui assistir à montagem do tradicional espetáculo “O Quebra Nozes”, feita pela Cia. de Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro no Teatro Abril, aqui em SP.
De início, fiquei muito impressionado com a produção. Cenários riquíssimos (com direito a uma árvore de Natal que cresce durante uma cena), figurinos muito bonitos e cheios de detalhes, um verdadeiro banquete aos olhos. Das duas horas de música, escritas por P. Tchaikovsky, eu já conhecia e apreciava mais ou menos 1/4.
Acontece que tem coisas para as quais a gente não nasceu. Sem desmerecer em nada a fantástica montagem dos cariocas, digna de todos os elogios, eu simplesmente não parava de cochilar durante a maior parte do primeiro ato. Juro pra você que eu queria ficar acordado e assistir, aquilo tudo era muito bonito, mas eu não conseguia!
Vinte minutos de intervalo, no entanto, me foram úteis para voltar à Terra. Consegui curtir o segundo ato sem “pescar” nenhuma vez – talvez porque nele estivessem concentrados os trechos musicais que eu já conhecia, de modo que ao menos a música me manteve acordado. Além disso, a maior parte dos solos e das danças de par (desculpe não saber o nome técnico) também se acumulam no segundo ato, e ao menos para mim essas são as danças que mais chamam a atenção.
Assistir a este ballet foi uma experiência interessante e determinante. Agora tenho certeza absoluta de que eu não sirvo pra dançar esse tipo de coisa. Precisa de delicadeza demais. E precisa gostar muito pra fazer. Não atendo a nenhuma das requisições. Mas continuo aqui ouvindo a Dança da Fada dos Confeitos (a do vídeo aí em cima) e curtindo simplesmente a música pela música
A maioria de vocês já deve ter ouvido falar da estória d’O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, que conta como o dr. Henry Jekyll, numa tentativa fracassada de separar e isolar a essência maligna do ser humano, usando a si mesmo como cobaia, libertou de si um alter ego, Edward Hyde, uma terrível criatura assassina que era nada mais que todo seu “lado ruim” concentrado num único ser. O livro foi adaptado para o teatro na forma de um musical, Jekyll & Hyde, que estreou na Broadway em 28 de abril de 1997, no Plymouth Theatre. Doze anos depois, resolveram trazer esta excelente peça para os palcos tupiniquins.
Há cerca de um mês me inscrevi para as audições desse musical, através do site oficial. Preenchi uma ficha que incluía, entre outras coisas, meus trabalhos prévios em teatro/canto/dança e nível de experiência em cada uma dessas áreas; ali também precisei indicar para qual personagem gostaria de prestar. Minha escolha foi Spider (no vídeo acima, o cara que aparece aos 3’02″), cafetão de uma das personagens principais, Lucy – um papel pequeno que supus estar de acordo com minha pouca experiência nesse mundo do teatro.
Domingo passado a produção me ligou para marcar a audição. Para mim isso já foi uma vitória, já que, creio, nem todos os inscritos são convidados para os testes (suponho que haja uma pré-seleção das fichas cadastradas pelo site). Mas fui pego de surpresa, já que a produção divulgou há menos de uma semana as músicas que poderiam ser cantadas nesta audição – acreditava que teria ao menos um mês para preparar as duas músicas que escolhi. Primeira lição: eles querem que você já esteja pronto no ato da inscrição, não que você se prepare nos momentos anteriores ao teste.
Bom, marcamos meu teste para esta terça. Ou seja, tive domingo à tarde e segunda-feira à noite para ficar “no ponto” para o teste (na segunda fui ajudado pela minha querida professora de canto, que arranjou um horário em cima da hora para fazermos uma aula). Isso sem contar a construção das personagens que cantam originalmente as músicas escolhidas, atividade que ocupava meu cérebro quase todo o tempo, totalizando aproximadamente 49 horas de preparação. E lá fui eu para meu primeiro teste de verdade – “de verdade” porque já tinha feito um numa aula do conservatório, com banca composta por algumas pessoas conhecidas do meio, como o Luciano Amaral (o Lucas Silva e Silva de O Mundo da Lua), a Jana Amorim (bailarina e cantora que participou d’A Bela e a Fera, musical que já resenhei por aqui) e o Ricardo Marques, mas foi uma “aula de como fazer audição”, não uma audição propriamente dita.
O teste aconteceu no Espaço 10×21, no bairro de Perdizes, São Paulo. Mal cheguei, fui avisado que nós, candidatos, cantaríamos a princípio apenas uma música (não duas, como pedido via e-mail), e que só cantaríamos a segunda se nos fosse pedido. Escolhi a que ensaiara mais no dia anterior e cuja tessitura condizia mais com o personagem para o qual estava prestando.
Chegada minha vez, entrei, combinei minha audição com o pianista, fui para a marca e esperei que me permitissem começar. Vale um parênteses aqui: é engraçado como fiquei muito mais nervoso antes de ir para o Espaço 10×21 do que quando estava em frente à banca. Enfim, perguntaram que música eu cantaria e logo comecei com a primeira parte do solo de Quasimodo em “Lá Fora” (essa aí embaixo, versão em português de “Out There”, do filme e do musical O Corunda de Notre Dame).
Foi tudo muito rápido. A música saiu com facilidade (graças, em parte, à excelente acústica do lugar), mas certamente meu nervoso era visível aos olhos daqueles experientes profissionais, e minha pouca experiência como ator era evidenciada pela timidez dos gestos que acompanharam minha voz. Acabou a música, o diretor agradeceu com um leve sorriso e eu me retirei. Sem segunda canção nem nada.
Ficou bastante claro que não ganharei um papel. Sempre ouvi dizer, e sempre me pareceu muito crível, que quando uma banca de audição gosta de você ou acha que você se encaixa no perfil que procuram, pedem que você ou cante completa a música cujo trecho escolheu, ou que cante sua segunda opção, e se realmente gostarem do que foi mostrado lhe dão algumas indicações sobre a segunda fase de testes (ou callback). Que fique claro: não fui maltratado, ninguém ali se comportou de maneira rude – muito pelo contrário, fui recebido com simpatia -, mas creio que estavam todos cansados e sem tempo para bater papo.
De qualquer forma, me sinto bem. Meu objetivo maior desta vez era uma espécie de reconhecimento de terreno, saber como é a audição para um grande espetáculo. Qualquer coisa além disso teria sido um grande lucro. Não tive receio de me “queimar” com o diretor porque acredito já ter uma voz suficientemente preparada para não ser visto como um “aventureiro sem noção”. E consegui o que queria: experiência para ir melhor nas próximas tentativas, nas quais já terei mais conhecimento e prática como ator e como cantor para poder pleitear, efetivamente, um bom papel numa montagem de bom porte.
No último mês de julho, fiz uma apresentação lá no Souza Lima com várias cenas de musicais, como Les Misérables, Legally Blonde, Ópera do Malandro e Avenida Q. Na época, este último estava em cartaz no Rio. Claro que, quando veio pra Sampa, eu fiquei muito ansioso para ver – e eis que, na sexta passada, que eu achava ser do último fim de semana desta peça em cartaz, lá fui eu ao Teatro Procópio Ferreira assistir.
Altas expectativas para o musical dos bonecos. Tão altas que nem eu achava que iam ser satisfeitas. Mas me enganei: foi uma das melhores peças que já tive a oportunidade de ver! São tantas coisas para comentar que vou separando por tópicos, pra nós nos entendermos:
Local
Construído em 1948, o teatro fica ali na Rua Augusta, entre a Oscar Freire e a Estados Unidos. É bem amplo, ainda que não seja gigantesco (são 670 cadeiras meio puídas, mas ainda assim confortáveis), e conta com uma ótima acústica e um belo e moderno foyer, com um bar bem no meio.
Kate Monstra (Sabrina Korgut) e o protagonista Princeton (André Dias)
Produção
Comecemos pelos figurinos: por mais que os personagens humanos tenham trajes bem interessantes e característicos, o que mais chama a atenção são mesmo os bonecos. E sim, alguns deles têm mais de um figurino, entre pijamas e roupas de gala – isso quando não aparecem nus! Pois é, pra quem nunca ouviu falar da peça, vale dizer: trata-se de uma espécie de Vila Sésamo com temática adulta, com direito a palavrões, discussões sociológicas e até cenas de sexo entre muppets.
O cenário, em alguns momentos bem abrasileirado (isso porque trata-se de uma versão de um musical da Broadway), conta com alguns “acessórios” bem bacanas, como o par de camas do apartamento de Rod e Nicky (numa cena que é interessantemente vista “de cima”) e o Empire State Building que aparece em certa altura da encenação.
O som dos atores/cantores e da banda, que toca escondida, mas ao vivo, é muito bem equalizado e sai das caixas com excelente qualidade – tanto em termos de áudio quanto de execução.
Minha única ressalva neste tópico é quanto a cobrarem pelo programa do espetáculo. Ok, o papel é bom, tem verniz e tudo, foi caro fazer, mas cobrar R$ 10 à parte por algo que complementa a peça é um exagero.
Texto
Escrito originalmente por Robert Lopez e Jeff Marx (letras e música), o texto ao mesmo tempo bem-humorado e “agressivo” (porque nos faz pensar na lógica da sociedade em que vivemos) foi excelentemente traduzido por Claudio Botelho nesta versão tupiniquim. A grande sacada foi manter a tradução levemente aberta, o que permite contextualizar algumas piadas de acordo com o local da apresentação (como quando um personagem gay convida outro para ir ao Shopping Frei Caneca, conhecido em SP por ser bastante frequentado por homossexuais; na montagem carioca o local citado era outro).
Kate Monstra (Sabrina Korgut) e Nicky (Fred Silveira)
Atores
É aqui que a peça brilha. O texto é excelente, a produção é esmerada, os músicos são altamente gabaritados, mas o elenco de Avenida Q é o que realmente faz a peça valer a pena. Todos os que pilotam bonecos conseguem fazê-los andar com naturalidade, ter trejeitos e vozes características (e cantar com elas), além de utilizarem suas próprias expressões faciais como um complemento para as dos bonecos. É incrível como alguns dos atores controlam (e falam por) mais de um boneco – com surpreendentes momentos como, por exemplo, quando Sabrina Korgut, que faz Kate Monstra e Lucy de Vassa, está escondida dentro do casarão do cenário com o boneco de Kate, enquanto Renata Ricci encontra-se no palco controlando Lucy, e mesmo assim ouvimos, em sincronia perfeita, Sabrina falando por Lucy. O que mostra quanto trabalho esses fantásticos atores tiveram ensaiando antes de estrearem.
No dia em que fui assistir à peça, os três personagens humanos foram vividos pelos stand-ins. Minha única ressalva fica por conta de Carll Santos, que, ainda que bom ator, parecia não estar muito presente nas cenas, muitas vezes exagerando movimentos, e em outras com o olhar aparentemente distraído e distante. Mas nada que comprometesse seu Gary Coleman no contexto geral.
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Avenida Q continua em cartaz, diferentemente do que eu esperava, até 13/12. Então, você ainda tem pouco mais de um mês para ver (ou rever) esse fantástico musical, extremamente divertido e cativante. Aproveite a campanha Vá ao Teatro para comprar o ingresso por R$ 5 (é, cincão, acho que sentando nas laterais) ou pague R$ 80 (inteira) para escolher um lugar mais centralizado. Só não deixe passar a oportunidade.
Chegando em casa depois de ver Michael Kiske cantando Future World e I Want Out ao vivo. Com direito a palhinha de Elvis a capella.Boa noite 1 week ago