RSS

Arquivo da tag: namoro

A Lenta (Rafael Merimée, 1998)

Março de 1998. Rafael tinha 12 anos e acabava de chegar à festa de aniversário de um colega da escola. Encontraria seus três amigos (os dois Gabriel e o Luís) e certamente se divertiriam bastante nos arcades e brinquedões daquele buffet tão legal. Sabia também que ela estaria lá, linda como só ele podia perceber.

Sim: quando tocasse a lenta, ele a tiraria para dançar. Já vinha fazendo isso há algumas festas – não sem ser percebido pelos colegas mais malas, que já os zoavam colocando-os como casalzinho. Ele não queria que percebessem, que se intrometessem em sua estratégia de conquista (estratégia que nem para ele era muito clara. Pensava em pedi-la em namoro, talvez, dali uns dois ou três meses, de preferência antes das férias começarem). Decidira se apaixonar por ela poucas semanas após o início das aulas, e os chatos não o atrapalhariam em sua empreitada.

Conforme planejado, diverte-se um bocado com os amigos até que, enfim, o DJ anuncia a lenta. Anda apressado para a pista de dança, seguindo os amigos e procurando Paula com os olhos. Ouvem-se as primeiras notas de My Heart Will Go On, entra a voz de Celine Dion e os primeiros casais começam a formar-se. “Putz, será que eu tiro ela? E se ela descobrir que eu to afim dela? E se ficarem me zoando?” são os pensamentos que lhe passam pela cabeça, na dura tomada de coragem para, mais uma vez, demonstrar à garota o quanto gostava dela. Quando enfim decide-se por convidá-la de fato à dança, é tarde: o cara da 6ª série já está ali, dançando com ela a cinco passos de distância. “Droga”, xinga mentalmente enquanto tremem mãos e boca.

My Heart Will Go On logo emenda na batida dançante de Believe, Cher, e todos começam a agitar-se e dançar esquisito. Menos Rafael. Ele reclama com os amigos enquanto saem da pista de dança para voltar ao arcade, e a resposta é aquela que já ouve há anos, vida das mais diferentes bocas: “Você devia ter ido mais rápido.”

Maldita timidez.

 
1 Comment

Publicado por em 08/05/2010 em Conto

 

Tags: , , , , , , , ,

La Musica

Xuxa Lopes e Hélio Cícero, o casal de La Musica

Xuxa Lopes e Hélio Cícero, o casal de La Musica

Sábado à noite, eu e minha namorada íamos assistir à peça Alma Boa de Setsuan, no Tuca, em São Paulo. Chegando lá, demos de cara com uma baita multidão. Entramos na fila da bilheteria e o rapaz que a organizava falou que não haviam mais ingressos para a peça naquela noite, mas que ainda poderíamos conseguir um lugar para o espetáculo em cartaz ali do lado, no Tucarena. Apressados e em cima da hora, aceitamos a sugestão, e lá fomos nós assistir a La Musica.

Entramos logo após o segundo sinal. A música já começava a inserir o público num certo clima. Terceiro sinal, baixam as luzes e a ação tem início.

A peça é um diálogo entre as personagens Anne-Marie Roche e Michel Nollet, vividas respectivamente por Xuxa Lopes e pelo fantástico Hélio Cícero. Divorciados há cerca de três anos, o casal francês idealizado por Marguerite Duras em 1965 estivera completamente afastado até o reencontro inesperado no saguão de um hotel, cenário da apresentação. Ali, inicialmente muito constrangidos, eles voltam a se falar e aproveitam para ‘lavar a roupa suja’.

O texto trata de assuntos como adultério, ciúmes, casamento. Os longos e densos silêncios do início da peça são lentamente substituídos por discussões cada vez mais intensas, que tratam não apenas do passado de cada um e dos motivos que levaram ao fim do casamento, mas abrangendo questões mais profundas, como a manutenção da liberdade de cada metade do par mesmo após consumarem-se os sagrados votos. Liberdade que deveria permitir à mulher suas solitárias incursões ao cinema ou às corridas de cavalo, mas que provocam no marido um ciúmes imenso dela com… ela mesma.

O clima noir da Paris do século passado faz-se tanto pelos móveis e pelo papel de parede quanto pelas lâmpadas quentes que cercam o cenário, cobertas por luminárias características. A música, por outro lado, em nada remete à época em que se passa a ação. Outros elementos do design de som, como as falas de personagens que não estão presentes (que falariam via telefone ou escondidas atrás de móveis) e os sinos que parecem soar aleatoriamente ao longo da peça, deixam um tanto a desejar. Há de se destacar que, ao menos na noite em que assisti à peça, o som das gravações estava com o volume extremamente alto – algo desagradável, ainda que não comprometa a compreensão da obra.

Preciso fazer um parágrafo sobre a atuação de Hélio Cícero. Em minha há pouco iniciada incursão no mundo do teatro, é a segunda vez que tenho a oportunidade de assistir a uma peça com este grande ator; a primeira foi em O Fingidor, de Samir Yazbek, em que ele protagoniza Fernando Pessoa e seu heterônimo vivo, Jorge Madeira, criado para ser um datilógrafo simples e nada poeta. Vi, portanto, em duas peças, três personagens interpretadas por Cícero (tendo em vista que Jorge Madeira é Fernando Pessoa, mas tem suas próprias peculiaridades, e é, portanto, uma personagem vivida por outra personagem). E é incrível ver como este ator consegue, mesmo mantendo seu timbre de voz natural e seu falar pausado característico, representar papéis tão diametralmente opostos com a mesma alta qualidade. A face de comediante que vi na primeira peça é substituída aqui pela de um homem algo perturbado, incomodado com o fim de seu casamento, mas que parece refrear seus sentimentos até o último instante; um homem que segue sua vida com uma namorada, mas ainda guarda por sua ex-esposa, trancados no âmago, os mesmos sentimentos de outrora.

La Musica é uma boa peça, de curta duração (aprox. 1h), indicada para quem se interessa por conflitos de relacionamento. Um texto não exatamente leve, com algumas frases razoavelmente profundas, num espetáculo que vale mais para observar a performance dos atores do que pelo conteúdo em si.

 
Leave a comment

Publicado por em 21/09/2009 em Resenhas, Teatro

 

Tags: , , , , , , , , , , ,

Da solteirice

A que ponto chegamos...

A que ponto chegamos...

Sabe, desde que vi, há alguns meses, a notícia daquela passeata dos solteiros, aqui em São Paulo e no Rio de Janeiro, fiquei com um incômodo me corroendo a cabeça. Como é possível que, num momento da nossa História em que a comunicação entre as pessoas é tão fácil, ninguém se entenda e precise-se organizar uma manifestação pública para protestar contra a solidão?

Estava aqui conversando com um grande amigo e me surgiu, talvez, uma possível resposta pra boa parte desse desencontro. Talvez a própria facilidade de comunicação seja a “culpada”. É verdade! Somos diariamente agraciados com tantas referências visuais/psicológicas/estéticas que temos condições de imaginar um “par perfeito” (como o orkut nos sugere descrever em nossos perfis), alguém que provavelmente não existe, mas que é quem gostaríamos de ter ao nosso lado.

Acontece que, como temos, em geral, a consciência de que esses seres ideais não existem de fato, procuramos nas pessoas reais o reflexo da(o) parceira(o) que temos em mente. E nunca encontramos alguém que se encaixe direitinho no perfil. E ficamos nessa eterna procura, em ciclos intermináveis de conhecer -> gostar -> conhecer melhor -> se frustrar.

Cabe aqui um exemplo: minha ex-namorada. Termo até forte pra um relacionamento que durou 1 mês, mas vá lá. Foi ela quem tomou a maior parte das iniciativas, ainda que eu fosse fisicamente bem diferente do que ela dizia gostar. Só que, em termos de atitude, eu parecia ser o cara que ela queria. Quando terminamos, ela me disse que estava acabando porque eu não era aquilo que ela imaginava. Ela imaginou todo um ser com base em alguns cacos de informação que tinha a meu respeito, cacos estes colados com o que ela sonhava ser o “par perfeito” para ela. Obviamente a cola era fraca, porque irreal, e o Thiago que ela criou eventualmente se despedaçou na frente dela, mostrando um cara diferente (pra constar: um cara menos “metal”, menos “do mal”, mais sussa do que ela gosta etc).

Bom, continuo eu mesmo tendo minha ideia de “par perfeito”, assim como suponho que você tenha, mas estou procurando deixar essa mulher utópica guardada na gaveta quando conheço uma pessoa nova. De repente meu par perfeito não é aquele que eu tenho em mente, mas alguém que só vai se revelar como tal se eu me permitir conhecer pessoas diferentes. Não conheço todas as pessoas do mundo, e pode ser que a pessoa ideal para mim tenha características com as quais eu ainda não tenha me confrontado nessa vida.

 
1 Comment

Publicado por em 08/07/2009 em Reflexões & Filosofia

 

Tags: , , , , ,

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 130 other followers