Schubert acordava-o naquela manhã de feriado. O ar inspirado no primeiro bocejo do dia vinha carregado de um doce perfume. Sentia-se reconfortado, pleno em vida e vigor.
Subiu a veneziana, permitindo que o sol matutino banhasse em luz o chão de seu quarto, sua cama, seu criado-mudo; e ali, reluzindo, um grampo de cabelo esquecido fez seu rosto cobrir-se de sorriso.
O acessório eliminou o torpor do acordar e trouxe consigo todas as lembranças da noite anterior. A peça de teatro, as luzes da cidade, o café sorvido em plena madrugada, as conversas… E ela ali, tão inexoravelmente próxima. Ela que, depois de racionalmente afastá-lo não uma, mas duas vezes; ela que, ele sabia, o queria; ela, que acabara de revelar-lhe a intenção de não mais tentar controlar todo e qualquer aspecto da própria vida, já que o racional controle parecia-lhe via errada à felicidade, negara-o uma terceira vez. Negara-o e dissertara os porquês. Negara-o independentemente da atmosfera que novamente colava suas almas. Negara-o, mas oferecera-lhe carona para casa, já que o metrô encerrara o expediente.
Dirigiram o carro e verdades. Chegaram ao portão da casa de Rafael. E ali, a vida tornara-se cinema: na despedida, transbordou o beijo que ambos guardavam contra a vontade, pela razão; trancara-se o carro, chamara-se o elevador, abrira-se a porta; pausas tchekhovianas e mesclaram-se as almas.
Rafael desviou o olhar do grampo, mas a mente manteve-se olhando na mesma direção – e dali não mais saiu.


