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Day After (Rafael Merimée, 2008)

Schubert acordava-o naquela manhã de feriado. O ar inspirado no primeiro bocejo do dia vinha carregado de um doce perfume. Sentia-se reconfortado, pleno em vida e vigor.

Subiu a veneziana, permitindo que o sol matutino banhasse em luz o chão de seu quarto, sua cama, seu criado-mudo; e ali, reluzindo, um grampo de cabelo esquecido fez seu rosto cobrir-se de sorriso.

O acessório eliminou o torpor do acordar e trouxe consigo todas as lembranças da noite anterior. A peça de teatro, as luzes da cidade, o café sorvido em plena madrugada, as conversas… E ela ali, tão inexoravelmente próxima. Ela que, depois de racionalmente afastá-lo não uma, mas duas vezes; ela que, ele sabia, o queria; ela, que acabara de revelar-lhe a intenção de não mais tentar controlar todo e qualquer aspecto da própria vida, já que o racional controle parecia-lhe via errada à felicidade, negara-o uma terceira vez. Negara-o e dissertara os porquês. Negara-o independentemente da atmosfera que novamente colava suas almas. Negara-o, mas oferecera-lhe carona para casa, já que o metrô encerrara o expediente.

Dirigiram o carro e verdades. Chegaram ao portão da casa de Rafael. E ali, a vida tornara-se cinema: na despedida, transbordou o beijo que ambos guardavam contra a vontade, pela razão; trancara-se o carro, chamara-se o elevador, abrira-se a porta; pausas tchekhovianas e mesclaram-se as almas.

Rafael desviou o olhar do grampo, mas a mente manteve-se olhando na mesma direção – e dali não mais saiu.

 
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Publicado por em 17/10/2010 em Conto

 

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O show (Rafael Merimée, 2003)

Abril de 2003. Naquela noite aconteceria o show de uma de suas bandas favoritas, daqueles com gravação de DVD e tudo. A maior parte de seus amigos não era grande fã da banda, então Rafael iria com uma amiga que conhecera pela internet. Calma, calma: já tinham se encontrado pessoalmente antes, portanto nada mais seguro.

O dia arrastou-se, viscoso, até que se aproximasse o horário de ir ao show. Trajando-se de maneira apropriada para a ocasião, o adolescente finalmente chegou à grande casa de espetáculos, onde a amiga o esperava desde as 14h, acompanhada da irmã.

Foi quase um susto. Joana, a amiga, não era exatamente uma mulher bonita, nem sequer tinha um quê atraente. Sua irmã, no entanto, encontrava-se no extremo oposto da esfera da beleza: dois anos mais velha, a morena atraía olhares de todos os roqueiros próximos. Ainda assim, não fazia muito o tipo de Rafael.

O rapaz, porém, sempre cortez, percebia que a agitação dos outros jovens incomodava a moça: pulavam tanto que constantemente esbarravam nela. Como homem, deveria protegê-la, e assim fez: envolveu seus ombros com o braço esquerdo, evitando que os ogros próximos continuassem a incomodá-la. Ela percebeu.

Caminharam assim abraçados até entrarem na pista. Ela podia não fazer seu tipo, mas certamente o toque de seu corpo contra o dele provocava-lhe uma sensação agradável. Ela parecia igualmente confortável, de modo que permaneceram igualmente próximos enquanto esperavam pelo início do show. Joana, que vinha à direita de Rafael, observando o comportamento do amigo com a irmã, tomou-lhe a mão e começou a acariciá-la. “O que ela está fazendo?”, ele pensava, ainda que não achasse nada mal estar cercado por duas mulheres – sentia, talvez subconscientemente, que instaurava-se um clima de disputa entre as duas irmãs, e isso massageava seu ego masculino.

O início do show veio como uma enorme rocha despencando sobre o mar. Os três estavam muito próximos do palco, e a agitação do público em ondas quase os derrubava: moviam-se independentemente de sua vontade, os corpos inclinando-se a graus perigosos, a queda tornando-se quase iminente. Joana passa mal, e o trio se vê forçado a afastar-se dos músicos, rumo a um espaço mais vazio e mais seguro.

Com mais espaço, não havia necessidade de ficarem os três grudados. E assim Joana ficou um pouco mais à frente da irmã e de Rafael, que, no entanto, continuavam abraçados. Hormônios rugiam no corpo do rapaz a cada movimento que aquela linda mulher fazia ali, tão terrivelmente próxima. Ecoavam em sua mente as palavras que ouvira a vida toda: “Você pensa demais”, “Você deveria ter ido mais rápido”. Ali, não havia o que pensar. Ela estava lá, grudada nele há mais de uma hora, e eles tinham acabado de se conhecer.

Ele conhecia o repertório. E na hora certa, na música certa, sob os olhares tristes e raivosos de Joana, aconteceu.

 
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Publicado por em 01/06/2010 em Conto

 

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A Lenta (Rafael Merimée, 1998)

Março de 1998. Rafael tinha 12 anos e acabava de chegar à festa de aniversário de um colega da escola. Encontraria seus três amigos (os dois Gabriel e o Luís) e certamente se divertiriam bastante nos arcades e brinquedões daquele buffet tão legal. Sabia também que ela estaria lá, linda como só ele podia perceber.

Sim: quando tocasse a lenta, ele a tiraria para dançar. Já vinha fazendo isso há algumas festas – não sem ser percebido pelos colegas mais malas, que já os zoavam colocando-os como casalzinho. Ele não queria que percebessem, que se intrometessem em sua estratégia de conquista (estratégia que nem para ele era muito clara. Pensava em pedi-la em namoro, talvez, dali uns dois ou três meses, de preferência antes das férias começarem). Decidira se apaixonar por ela poucas semanas após o início das aulas, e os chatos não o atrapalhariam em sua empreitada.

Conforme planejado, diverte-se um bocado com os amigos até que, enfim, o DJ anuncia a lenta. Anda apressado para a pista de dança, seguindo os amigos e procurando Paula com os olhos. Ouvem-se as primeiras notas de My Heart Will Go On, entra a voz de Celine Dion e os primeiros casais começam a formar-se. “Putz, será que eu tiro ela? E se ela descobrir que eu to afim dela? E se ficarem me zoando?” são os pensamentos que lhe passam pela cabeça, na dura tomada de coragem para, mais uma vez, demonstrar à garota o quanto gostava dela. Quando enfim decide-se por convidá-la de fato à dança, é tarde: o cara da 6ª série já está ali, dançando com ela a cinco passos de distância. “Droga”, xinga mentalmente enquanto tremem mãos e boca.

My Heart Will Go On logo emenda na batida dançante de Believe, Cher, e todos começam a agitar-se e dançar esquisito. Menos Rafael. Ele reclama com os amigos enquanto saem da pista de dança para voltar ao arcade, e a resposta é aquela que já ouve há anos, vida das mais diferentes bocas: “Você devia ter ido mais rápido.”

Maldita timidez.

 
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Publicado por em 08/05/2010 em Conto

 

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