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Trilhos e bifurcações

Imagine que, com cada pessoa, você sobe num trem diferente e segue por trilhos. Com determinadas pessoas, o trilho é único, o caminho é fácil; geralmente nesses casos a viagem chega a seu destino rapidamente, o trem pára, vocês descem e seguem seus próprios caminhos a pé.

Em outros casos, no horizonte se vê uma bifurcação. Ou talvez se possa chamar desvio. Você pode seguir reto ou virar à direita. Se for virar à direita, tem que puxar aquela alavanca que faz os trilhos se reposicionarem. E no começo, a cada 5 minutos o caminho da direita te oferece uma oportunidade de voltar ao trajeto original. Mas só no começo. O caminho da direita oferece perigos, altos e baixos, e você nunca sabe o que virá à frente.

O duro é quando você sem querer usa a alavanca pra virar à direita, quer voltar, mas todas as alavancas à frente emperraram.

 
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Publicado por em 30/06/2010 em Reflexões & Filosofia

 

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Da vida das flores

Imagine que somos rodeados por pequenas sementes flutuantes. Quando nossa alma encontra um terreno que lhe parece fértil, voa ali uma dessas sementes.

Em alguns terrenos, ela começa a germinar. Germina muitas vezes sem saber onde está ou o que será dela um dia. Germina contente, cheia de vida, quase brilha com luz própria.

E começa a crescer. Conforme o tempo passa, ela vai tomando contato com o terreno, conhecendo-lhe as peculiaridades. Intempéries surgem: um vento mais forte, uma chuva mais intensa, uma praga que pode resolver atacar-lhe.

Aí que entram as espécies. Algumas sementes se tornam lindas flores, rosas vermelhas, que banham a vista, mas morrem em pouco tempo.

Outras viram árvores frondosas, resistentes: cuidadas por um bom jardineiro, crescem a olhos vistos e duram muito. Cada um de nós tem uma semente que gera uma árvore majestosa e perene. Não quer dizer que todos lhe achem o terreno apropriado.

Boa parte das sementes gera plantinhas que não sobrevivem às peculiaridades do terreno ou às tempestades que desabam sobre elas. Isso não impede, no entanto, que elas caiam ao solo e tentem viver.

… queria ser um jardineiro melhor.

 
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Publicado por em 28/11/2009 em Reflexões & Filosofia

 

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La Musica

Xuxa Lopes e Hélio Cícero, o casal de La Musica

Xuxa Lopes e Hélio Cícero, o casal de La Musica

Sábado à noite, eu e minha namorada íamos assistir à peça Alma Boa de Setsuan, no Tuca, em São Paulo. Chegando lá, demos de cara com uma baita multidão. Entramos na fila da bilheteria e o rapaz que a organizava falou que não haviam mais ingressos para a peça naquela noite, mas que ainda poderíamos conseguir um lugar para o espetáculo em cartaz ali do lado, no Tucarena. Apressados e em cima da hora, aceitamos a sugestão, e lá fomos nós assistir a La Musica.

Entramos logo após o segundo sinal. A música já começava a inserir o público num certo clima. Terceiro sinal, baixam as luzes e a ação tem início.

A peça é um diálogo entre as personagens Anne-Marie Roche e Michel Nollet, vividas respectivamente por Xuxa Lopes e pelo fantástico Hélio Cícero. Divorciados há cerca de três anos, o casal francês idealizado por Marguerite Duras em 1965 estivera completamente afastado até o reencontro inesperado no saguão de um hotel, cenário da apresentação. Ali, inicialmente muito constrangidos, eles voltam a se falar e aproveitam para ‘lavar a roupa suja’.

O texto trata de assuntos como adultério, ciúmes, casamento. Os longos e densos silêncios do início da peça são lentamente substituídos por discussões cada vez mais intensas, que tratam não apenas do passado de cada um e dos motivos que levaram ao fim do casamento, mas abrangendo questões mais profundas, como a manutenção da liberdade de cada metade do par mesmo após consumarem-se os sagrados votos. Liberdade que deveria permitir à mulher suas solitárias incursões ao cinema ou às corridas de cavalo, mas que provocam no marido um ciúmes imenso dela com… ela mesma.

O clima noir da Paris do século passado faz-se tanto pelos móveis e pelo papel de parede quanto pelas lâmpadas quentes que cercam o cenário, cobertas por luminárias características. A música, por outro lado, em nada remete à época em que se passa a ação. Outros elementos do design de som, como as falas de personagens que não estão presentes (que falariam via telefone ou escondidas atrás de móveis) e os sinos que parecem soar aleatoriamente ao longo da peça, deixam um tanto a desejar. Há de se destacar que, ao menos na noite em que assisti à peça, o som das gravações estava com o volume extremamente alto – algo desagradável, ainda que não comprometa a compreensão da obra.

Preciso fazer um parágrafo sobre a atuação de Hélio Cícero. Em minha há pouco iniciada incursão no mundo do teatro, é a segunda vez que tenho a oportunidade de assistir a uma peça com este grande ator; a primeira foi em O Fingidor, de Samir Yazbek, em que ele protagoniza Fernando Pessoa e seu heterônimo vivo, Jorge Madeira, criado para ser um datilógrafo simples e nada poeta. Vi, portanto, em duas peças, três personagens interpretadas por Cícero (tendo em vista que Jorge Madeira é Fernando Pessoa, mas tem suas próprias peculiaridades, e é, portanto, uma personagem vivida por outra personagem). E é incrível ver como este ator consegue, mesmo mantendo seu timbre de voz natural e seu falar pausado característico, representar papéis tão diametralmente opostos com a mesma alta qualidade. A face de comediante que vi na primeira peça é substituída aqui pela de um homem algo perturbado, incomodado com o fim de seu casamento, mas que parece refrear seus sentimentos até o último instante; um homem que segue sua vida com uma namorada, mas ainda guarda por sua ex-esposa, trancados no âmago, os mesmos sentimentos de outrora.

La Musica é uma boa peça, de curta duração (aprox. 1h), indicada para quem se interessa por conflitos de relacionamento. Um texto não exatamente leve, com algumas frases razoavelmente profundas, num espetáculo que vale mais para observar a performance dos atores do que pelo conteúdo em si.

 
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Publicado por em 21/09/2009 em Resenhas, Teatro

 

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Atuando

Smile do TeatroTeatro. “As pessoas pagam pra serem enganadas – e essa é a grande magia do teatro”, disse, mais ou menos nessas palavras, Luciano Amaral num workshop a que assisti no Conservatório Souza Lima há alguns meses. Achei o conceito bastante interessante.

Quando somos crianças, nossa capacidade de atuação é, de certo modo, bem maior do que a partir da adolescência. Quando crianças, não temos bloqueios sociais, imaginamos à vontade, inventamos que somos esse ou aquele personagem e lá estamos, incorporando-o, independente da riqueza e detalhamento do figurino, ignorando o que pensam de nós. Simplesmente resolvemos ser aquela pessoa (ou monstro, herói, ou o que quer que seja) e nos transformamos nela. “Enganamos” a nós mesmos, e é isso que garante a diversão.

Conforme crescemos, fica mais difícil ter essa liberdade. Nossas atitudes passam a ser julgadas com maior rigor pela sociedade e nos sentimos tolhidos diante de certos comportamentos, de modo que passamos (uns mais, outros menos) a pensar mais antes de agir, e cortamos as atitudes que podem ser taxadas como ridículas ou reprováveis.

O ator não pode se podar dessa maneira. Disse certo professor de um ex-colega de conservatório: “Pagar mico no palco é não pagar mico”. Você só pode passar uma verdade no palco (verdade falsa, porque fictícia, mas crível para o público) se não sentir vergonha, se tiver confiança na sua atitude e se ignorar possíveis julgamentos alheios. Aí você “engana” o público do jeito que ele quer ser enganado. Do contrário, você efetivamente paga um mico.

Eu sempre me importei muito com o que os outros pensavam de mim. Até que comecei a atuar – primeiro como guitarrista, depois como cantor, e bem recentemente como ator iniciante (vale lembrar que o músico no palco também é uma personagem). Gradativamente fui mudando, parando de julgar a mim mesmo, de me auto-criticar ferrenhamente antes de cada ação e, sem perceber, deixei de ser tímido. Ou talvez tenha colocado de lado o “papel” de homem tímido. O que importa é que, com essa mudança interna, percebi que a atitude dos outros em relação a mim mudou, e que as pessoas que conheci mais recentemente jamais diriam que sou introvertido, ou que fui um dia.

Percebi enfim que aquele que acredita nas próprias atitudes convence aos que o rodeiam, e se torna um bom ator no imenso palco da sociedade. Os demais mal conseguem ser figurantes.

P.S.: Pra quem não se lembra/sabe, Luciano Amaral era o Lucas Silva e Silva de “Mundo da Lua” e o Pedro de “Castelo Rá-Tim-Bum”.

 
 

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Da solteirice

A que ponto chegamos...

A que ponto chegamos...

Sabe, desde que vi, há alguns meses, a notícia daquela passeata dos solteiros, aqui em São Paulo e no Rio de Janeiro, fiquei com um incômodo me corroendo a cabeça. Como é possível que, num momento da nossa História em que a comunicação entre as pessoas é tão fácil, ninguém se entenda e precise-se organizar uma manifestação pública para protestar contra a solidão?

Estava aqui conversando com um grande amigo e me surgiu, talvez, uma possível resposta pra boa parte desse desencontro. Talvez a própria facilidade de comunicação seja a “culpada”. É verdade! Somos diariamente agraciados com tantas referências visuais/psicológicas/estéticas que temos condições de imaginar um “par perfeito” (como o orkut nos sugere descrever em nossos perfis), alguém que provavelmente não existe, mas que é quem gostaríamos de ter ao nosso lado.

Acontece que, como temos, em geral, a consciência de que esses seres ideais não existem de fato, procuramos nas pessoas reais o reflexo da(o) parceira(o) que temos em mente. E nunca encontramos alguém que se encaixe direitinho no perfil. E ficamos nessa eterna procura, em ciclos intermináveis de conhecer -> gostar -> conhecer melhor -> se frustrar.

Cabe aqui um exemplo: minha ex-namorada. Termo até forte pra um relacionamento que durou 1 mês, mas vá lá. Foi ela quem tomou a maior parte das iniciativas, ainda que eu fosse fisicamente bem diferente do que ela dizia gostar. Só que, em termos de atitude, eu parecia ser o cara que ela queria. Quando terminamos, ela me disse que estava acabando porque eu não era aquilo que ela imaginava. Ela imaginou todo um ser com base em alguns cacos de informação que tinha a meu respeito, cacos estes colados com o que ela sonhava ser o “par perfeito” para ela. Obviamente a cola era fraca, porque irreal, e o Thiago que ela criou eventualmente se despedaçou na frente dela, mostrando um cara diferente (pra constar: um cara menos “metal”, menos “do mal”, mais sussa do que ela gosta etc).

Bom, continuo eu mesmo tendo minha ideia de “par perfeito”, assim como suponho que você tenha, mas estou procurando deixar essa mulher utópica guardada na gaveta quando conheço uma pessoa nova. De repente meu par perfeito não é aquele que eu tenho em mente, mas alguém que só vai se revelar como tal se eu me permitir conhecer pessoas diferentes. Não conheço todas as pessoas do mundo, e pode ser que a pessoa ideal para mim tenha características com as quais eu ainda não tenha me confrontado nessa vida.

 
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Publicado por em 08/07/2009 em Reflexões & Filosofia

 

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