RSS

Arquivo da tag: sociedade

Avenida Q em São Paulo

Avenida QNo último mês de julho, fiz uma apresentação lá no Souza Lima com várias cenas de musicais, como Les Misérables, Legally Blonde, Ópera do Malandro e Avenida Q. Na época, este último estava em cartaz no Rio. Claro que, quando veio pra Sampa, eu fiquei muito ansioso para ver – e eis que, na sexta passada, que eu achava ser do último fim de semana desta peça em cartaz, lá fui eu ao Teatro Procópio Ferreira assistir.

Altas expectativas para o musical dos bonecos. Tão altas que nem eu achava que iam ser satisfeitas. Mas me enganei: foi uma das melhores peças que já tive a oportunidade de ver! São tantas coisas para comentar que vou separando por tópicos, pra nós nos entendermos:

Local

Construído em 1948, o teatro fica ali na Rua Augusta, entre a Oscar Freire e a Estados Unidos. É bem amplo, ainda que não seja gigantesco (são 670 cadeiras meio puídas, mas ainda assim confortáveis), e conta com uma ótima acústica e um belo e moderno foyer, com um bar bem no meio.

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e o protagonista Princeton (André Dias)

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e o protagonista Princeton (André Dias)

Produção

Comecemos pelos figurinos: por mais que os personagens humanos tenham trajes bem interessantes e característicos, o que mais chama a atenção são mesmo os bonecos. E sim, alguns deles têm mais de um figurino, entre pijamas e roupas de gala – isso quando não aparecem nus! Pois é, pra quem nunca ouviu falar da peça, vale dizer: trata-se de uma espécie de Vila Sésamo com temática adulta, com direito a palavrões, discussões sociológicas e até cenas de sexo entre muppets.

O cenário, em alguns momentos bem abrasileirado (isso porque trata-se de uma versão de um musical da Broadway), conta com alguns “acessórios” bem bacanas, como o par de camas do apartamento de Rod e Nicky (numa cena que é interessantemente vista “de cima”) e o Empire State Building que aparece em certa altura da encenação.

O som dos atores/cantores e da banda, que toca escondida, mas ao vivo, é muito bem equalizado e sai das caixas com excelente qualidade – tanto em termos de áudio quanto de execução.

Minha única ressalva neste tópico é quanto a cobrarem pelo programa do espetáculo. Ok, o papel é bom, tem verniz e tudo, foi caro fazer, mas cobrar R$ 10 à parte por algo que complementa a peça é um exagero.

Texto

Escrito originalmente por Robert Lopez e Jeff Marx (letras e música), o texto ao mesmo tempo bem-humorado e “agressivo” (porque nos faz pensar na lógica da sociedade em que vivemos) foi excelentemente traduzido por Claudio Botelho nesta versão tupiniquim. A grande sacada foi manter a tradução levemente aberta, o que permite contextualizar algumas piadas de acordo com o local da apresentação (como quando um personagem gay convida outro para ir ao Shopping Frei Caneca, conhecido em SP por ser bastante frequentado por homossexuais; na montagem carioca o local citado era outro).

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e Nicky (Fred Silveira)

Kate Monstra (Sabrina Korgut) e Nicky (Fred Silveira)

Atores

É aqui que a peça brilha. O texto é excelente, a produção é esmerada, os músicos são altamente gabaritados, mas o elenco de Avenida Q é o que realmente faz a peça valer a pena. Todos os que pilotam bonecos conseguem fazê-los andar com naturalidade, ter trejeitos e vozes características (e cantar com elas), além de utilizarem suas próprias expressões faciais como um complemento para as dos bonecos. É incrível como alguns dos atores controlam (e falam por) mais de um boneco – com surpreendentes momentos como, por exemplo, quando Sabrina Korgut, que faz Kate Monstra e Lucy de Vassa, está escondida dentro do casarão do cenário com o boneco de Kate, enquanto Renata Ricci encontra-se no palco controlando Lucy, e mesmo assim ouvimos, em sincronia perfeita, Sabrina falando por Lucy. O que mostra quanto trabalho esses fantásticos atores tiveram ensaiando antes de estrearem.

No dia em que fui assistir à peça, os três personagens humanos foram vividos pelos stand-ins. Minha única ressalva fica por conta de Carll Santos, que, ainda que bom ator, parecia não estar muito presente nas cenas, muitas vezes exagerando movimentos, e em outras com o olhar aparentemente distraído e distante. Mas nada que comprometesse seu Gary Coleman no contexto geral.

***

Avenida Q continua em cartaz, diferentemente do que eu esperava, até 13/12. Então, você ainda tem pouco mais de um mês para ver (ou rever) esse fantástico musical, extremamente divertido e cativante. Aproveite a campanha Vá ao Teatro para comprar o ingresso por R$ 5 (é, cincão, acho que sentando nas laterais) ou pague R$ 80 (inteira) para escolher um lugar mais centralizado. Só não deixe passar a oportunidade.

Ficha técnica aqui. E um videozinho de aperitivo:

 
1 Comment

Publicado por em 02/11/2009 em Música, Resenhas, Teatro

 

Tags: , , , , , , , , , , ,

E Agora, Nora?

E Agora, Nora?Inteligente e inteligível. Dois adjetivos absolutamente apropriados para qualificar a peça E Agora, Nora?, em cartaz no Teatro Augusta até 26 de agosto de 2010 (serviço abaixo).

A peça é um estudo sobre Casa de Bonecas, do dramaturgo norueguês Henrik Johan Ibsen. Esta, escrita originalmente em 1879, trata da hipocrisia da instituição familiar e tem certo ar feminista, dado que a protagonista, Nora, mulher alienada e típica dona de casa, eventualmente apercebe-se de sua condição e decide sair de casa para encontrar a própria identidade. A Cia. Temporária de Investigação Cênica apresenta uma leitura bastante interessante de seu material de suporte.

Algo do clima da encenação já começa a se criar no momento da compra do ingresso, quando recebemos a ficha técnica do espetáculo num formato no maior estilo “Não Perturbe”. Ao entrarmos no espaço cênico, cadeiras pequeninas, como as de bonecas, circundam o local da ação e nos convidam a sentar. Nossa perspectiva das atrizes Joana Dória de Almeida (também diretora), Júlia Novaes e Sofia Boito é, portanto, de baixo para cima, o que engrandece as Noras à nossa frente.

A maçã e o processo de descobrimento (crédito: divulgação)

Após uma abertura musical cantada por uma dona de casa mascarada, algumas palavras surgem iluminadas na parede e inicia-se uma espécie de sistema de produção em série, no qual mulheres-padrão são fabricadas, com seus corpetes repressores e suas perucas artificiais. Ao fundo, o som robótico de mulheres a enumerar produtos que permeiam o viver típico feminino reforçam a ideia da produção em série. E elas lavam, passam, esperam o marido, e tudo parece lindo até que se morde a maçã de Eva – maçã do pecado ou do esclarecimento? E as Noras se deparam com portas e mais portas, a princípio trancadas, mas eventualmente abertas. Por qual seguir?

Elas se livram das amarras dos corpetes (e de sua posição social até então consolidada) e se entregam ao outro extremo, querendo ser homens, se vestindo como homens, fumando seus charutos e virando suas doses de cachaça… mas será isso que elas querem? Ocupar as mesmas posições dos homens e chutá-los de seus lugares? Cansam-se, e chegam ao lugar onde se encontra a mulher atualmente, mais livres que as mulheres de outrora, mais autônomas, mas com uma identidade de fato. E chegam a um desfecho de total exposição ao público, como mulheres com suas próprias histórias e sua autonomia. Como diz uma das atrizes, agora interpretando a si mesma: “meus pais me criaram para ser uma mulher ou para ser uma pessoa?”

Fábrica (crédito: divulgação)

Tudo nos é contado de forma fragmentária, ora pelo texto, ora pelo figurino (trocado constantemente em cena), ora pela iluminação bem sacada que nos direciona o olhar ou se combina com as palavras na parede oposta à entrada. Há até algumas coreografias (com direito a pole dance no início da peça), também bastante signficativas. Há uma linearidade cronológica, que mostra a evolução da mulher na sociedade, mas não cênica. Inúmeras metáforas, com destaque à tal maçã do esclarecimento (que eventualmente se torna um carregamento de maçãs alienantes-pseudo-informativas, a la revista feminina, entuchando Nora com novas “obrigações” e pressões sociais), enriquecem o linguajar da obra sem torná-la hermética, o que considero um resultado altamente satisfatório para o ponto de vista do espectador.

Meu ingresso no mundo do teatro me trouxe a necessidade de explorá-lo, e tenho visto muitas peças desde que fiz a opção por este caminho. Desde então, deparei-me com apresentações absolutamente mastigáveis (como a do musical A Bela e a Fera) e outras que me pareceram intencionar um eruditismo desmedido, típico dos “gênios auto-intitulados”, o que as tornava extremamente herméticas. O espetáculo da Cia. Temporária de Investigação Cênica foi o primeiro a que assisti que encontra o ponto de equilíbrio, permitindo uma ginástica cerebral sem comprometer a inteligibilidade da peça. Parabéns às meninas-mulheres!

[EDIT: a peça reestreia em 07/07/2010, e o serviço abaixo foi atualizado]

Serviço

Local: Teatro Augusta – R. Augusta, 943 (50 lugares)
Fone: 3151-4141
Preço: R$ 25 (inteira), R$ 12,50 (meia)
Datas: de 7 de julho a 28 de agosto de 2010
Horário: quartas e quintas às 21h

Ficha técnica

Dramaturgia: Cia. Temporária de Investigação Cênica
Concepção e Direção: Joana Dória de Almeida
Elenco: Joana Dória de Almeida, Júlia Novaes e Sofia Boito
Assistente de Direção: Diogo Spinelli
Intervenções Poéticas (Samplers dramatúrgicos): Roberta Estrela D´Alva
Orientação: Cibele Forjaz
Desenho de Som: Pedro Semeghini
Desenho de Luz: Sofia Boito
Cenário e Figurinos: Cia. Temporária de Investigação Cênica
Vídeos: Carolina Mendonça e Fernanda Gomes

 
7 Comments

Publicado por em 23/08/2009 em Resenhas, Teatro

 

Tags: , , , , , , , , ,

Faca

Há faces do horror que este homem não colocou nos livros

Há faces do horror que este homem não colocou nos livros

Voltei há pouco de uma estimulante montagem teatral sobre Edgar Allan Poe. Acompanhado por duas amigas, assisti à peça no porão do Centro Cultural São Paulo, e me animo por ter entendido metade do que foi passado!

Mas este post não é sobre a peça, nem sobre o Centro Cultural, nem sobre as minhas amigas. É sobre o Seu Milton. Após o jantar, enquanto elas e eu papeávamos para passar o tempo (já que a peça começaria apenas às 21h), sentados num banco ali onde o complexo arquitetônico se junta à rua, ele se aproximou.

A barba por fazer, a roupa azul e branca (mas não tão branca assim), o boné na cabeça, o saco preto numa das mãos. A fala, nem sempre inteligível. Provavelmente ébrio. Seu Milton pediu ajuda. Não disse que queria dinheiro, apenas pediu ajuda. Desacostumados a sentir na pele a faca velha e enferrujada da realidade, não sabíamos bem o que fazer. Uma de minhas amigas tentou afastá-lo, dizendo que estávamos conversando (e querendo dizer que ele incomodava). Seu Milton não se deu por vencido, e continuou com sua fala de difícil compreensão. Insistia que não estava mentindo, que era verdade o que dizia, que o haviam roubado e ele tinha perdido tudo. Puxou do bolso um papel rasgado e amarrotado, onde pude ler algo sobre “extravio de bens” – aquilo era sua forma de comprovar a veracidade de seu discurso.

Notando o precário terço que Seu Milton carregava pendurado ao pescoço, ofereci-lhe a única coisa que considero certo dar a um pedinte: o que eu pudesse colaborar em conforto espiritual. Uma oração. Penso que a esmola em dinheiro, além de tudo que sempre ouvimos (“Ele vai comprar pinga ou outras drogas”), é uma maneira de colaborar para a permanência do mendigo na rua, evitando que ele procure meios mais edificantes de juntar dinheiro e reerguer-se socialmente. Chamem de pensamento burguês, se quiserem, mas realmente creio nisso. O homem olhou-me, com ar dúbio, e num gesto de desagrado e decepção puxou a cruz do terço para frente, arrebentando-o (creio que acidentalmente, dado seu estado).

Edgar Allan Poe falava muito de morte, escreveu contos fantásticos com inúmeras maneiras de se matar uma pessoa. Não me lembro de ter passado os olhos por um conto seu que falasse da morte interior. Seu Milton estava morto por dentro, embora seu corpo ainda vivesse. O gesto com o terço, intencionalmente ou não, mostrou que ele não acreditava mais em Deus, nem numa força motriz. Por que acreditar num Ser que tirou tudo de mim? Talvez pensasse isso. Mas mesmo para os ateus e pessoas de outras religiões, creio ser compatível pensar que o gesto mostrava o desapego pela vida em si. Este homem vive por inércia, sem um motivo. E sem motivo, não vivemos, apenas existimos.

Seu Milton não aceitou nossa prece, e se foi para outras paragens, murmurando, gritando meu nome (por educação e pena eu o tinha dito, oferecendo-lhe um mínimo de conversação) até perceber que não reagíamos mais a ele. Emudeceu-se e continuou seu movimento, e provavelmente jamais saberei que fim levará. E formou-se uma ferida causada pelo fio cortante de uma realidade que teimamos em ignorar. E essa ferida vai cicatrizar. E a cada nova ferida cicatrizada, formar-se-á e se reforçará um calo, até que eu seja mais um corpo resistente aos murros que o lado triste da sociedade desfere para chamar nossa atenção, para tentar clamar por ajuda. Como abrir os ouvidos para esses gritos? Como ajudar sem colocar-se num abismo privado de luz, preservando a si mesmo e erguendo os outros? O que podemos fazer? O quê, meu Deus? O quê?

 

Tags: , , , , , , ,

Atuando

Smile do TeatroTeatro. “As pessoas pagam pra serem enganadas – e essa é a grande magia do teatro”, disse, mais ou menos nessas palavras, Luciano Amaral num workshop a que assisti no Conservatório Souza Lima há alguns meses. Achei o conceito bastante interessante.

Quando somos crianças, nossa capacidade de atuação é, de certo modo, bem maior do que a partir da adolescência. Quando crianças, não temos bloqueios sociais, imaginamos à vontade, inventamos que somos esse ou aquele personagem e lá estamos, incorporando-o, independente da riqueza e detalhamento do figurino, ignorando o que pensam de nós. Simplesmente resolvemos ser aquela pessoa (ou monstro, herói, ou o que quer que seja) e nos transformamos nela. “Enganamos” a nós mesmos, e é isso que garante a diversão.

Conforme crescemos, fica mais difícil ter essa liberdade. Nossas atitudes passam a ser julgadas com maior rigor pela sociedade e nos sentimos tolhidos diante de certos comportamentos, de modo que passamos (uns mais, outros menos) a pensar mais antes de agir, e cortamos as atitudes que podem ser taxadas como ridículas ou reprováveis.

O ator não pode se podar dessa maneira. Disse certo professor de um ex-colega de conservatório: “Pagar mico no palco é não pagar mico”. Você só pode passar uma verdade no palco (verdade falsa, porque fictícia, mas crível para o público) se não sentir vergonha, se tiver confiança na sua atitude e se ignorar possíveis julgamentos alheios. Aí você “engana” o público do jeito que ele quer ser enganado. Do contrário, você efetivamente paga um mico.

Eu sempre me importei muito com o que os outros pensavam de mim. Até que comecei a atuar – primeiro como guitarrista, depois como cantor, e bem recentemente como ator iniciante (vale lembrar que o músico no palco também é uma personagem). Gradativamente fui mudando, parando de julgar a mim mesmo, de me auto-criticar ferrenhamente antes de cada ação e, sem perceber, deixei de ser tímido. Ou talvez tenha colocado de lado o “papel” de homem tímido. O que importa é que, com essa mudança interna, percebi que a atitude dos outros em relação a mim mudou, e que as pessoas que conheci mais recentemente jamais diriam que sou introvertido, ou que fui um dia.

Percebi enfim que aquele que acredita nas próprias atitudes convence aos que o rodeiam, e se torna um bom ator no imenso palco da sociedade. Os demais mal conseguem ser figurantes.

P.S.: Pra quem não se lembra/sabe, Luciano Amaral era o Lucas Silva e Silva de “Mundo da Lua” e o Pedro de “Castelo Rá-Tim-Bum”.

 
 

Tags: , ,

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 130 other followers