Queria ter escrito sobre o tema da perfeição no filme Cisne Negro. Queria ter falado do efeito curioso que me causou ver a trilogia “Enquanto isso…”, no Teatro Folha, indo nos três dias em sequência. Queria ter comentado a última peça do grupo Redimunho. Queria contar do curta “Foxtrot lisérgico”, que gravei há duas semanas. Mas não tá rolando.
Hei de voltar a ter tempo.
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Cessão
O véu
Um branco pastoso turba minha visão. Mas não se engane: meus olhos ainda captam bem as formas e cores refletidas pelos corpos do mundo. Sou um cego que enxerga.
As formas difusas que vejo às vezes me parecem tão próximas… mas aquelas que eventualmente alcanço, que necessitam de manufatura, levo longo tempo para esculpir.
Eventualmente caem pedaços de lógica nessa espécie de leite à minha frente; eles abrem um espaço pelo qual, em breve instante, enxergo com mais nitidez. Enxergo um relógio: marca 2h50, e corre. Ele conta as horas. Os dias. A vida.
Uma lógica de Sherlock me serve de óculos. Ao caçar, na arte, significados e subtextos, detalhes essenciais, sinto como se enxergasse novamente. Intensifica-se por dentro, num átimo, o que outrora era frequente.
Não há como pagar uma cirurgia corretiva. Não agora. Quem sabe um dia, quando ocorrer a fusão de sonho e realidade…
O Tempo
Quanto tempo dura um tempo? Qual o prazo para um conhecimento raso evoluir para um profundo? E por que é tão difícil abrir mão de seu próprio tempo em nome do alheio?
Talvez essas questões me perturbem porque sinto um enorme anseio em olhar através do impenetrável véu do futuro. Ver minhas necessidades e vontades satisfeitas no meu prazo, no meu próprio tempo. Mas o tempo da vida e o tempo das outras pessoas é diferente do tempo do meu pensamento. E essa ansiedade de ver o relógio correr mais rápido fere a alma pouco a pouco, como uma brasa a acariciar a pele, removendo-lhe camada após camada, rumo ao âmago.
Preciso aprender a beber na fonte da paciência. É ela que apaga a brasa e afaga a pele. É ela que permite às feridas curar-se, deixando as experiências mais resistentes, válidas, completas e, porque não, verdadeiras. Permite-lhes ir ao fundo mais fundo, onde brasa alguma pode chegar.
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A letra abaixo é de uma música minha, versão em português (a original é em inglês), que fala um pouquinho disso. Se quiser escutá-la, basta acessar www.myspace.com/thiagoschiefer.
Frantic (ainda não tem nome em português)
Lívida em carmesim
Queima-me a alma sem fim
Pressão crescendo em mim
Pra vida andar mais depressa
Nervoso, conto as horas
Tento olhar o futuro
Quero correr o tempo
Rápido, acelerar!
Respira,
O amanhã não há como saber
Sinta a vida!
Deixe-a se mostrar a ti
Pressa
(Correr contra o mundo)
Ansiedade
(Ter que esperar)
ou calma
Devo esperar
Com minha alma a queimar
Ao que se tem a me dar
A pressão há de parar
Levando a vida na paz
Respirar enfim
O amanhã não há como saber
Sinta a vida!
Deixe-a se mostrar a ti
Pressa
(Correr contra o mundo)
Ansiedade
(Ter que esperar)
ou calma
Devo esperar
