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O véu

Um branco pastoso turba minha visão. Mas não se engane: meus olhos ainda captam bem as formas e cores refletidas pelos corpos do mundo. Sou um cego que enxerga.

As formas difusas que vejo às vezes me parecem tão próximas… mas aquelas que eventualmente alcanço, que necessitam de manufatura, levo longo tempo para esculpir.

Eventualmente caem pedaços de lógica nessa espécie de leite à minha frente; eles abrem um espaço pelo qual, em breve instante, enxergo com mais nitidez. Enxergo um relógio: marca 2h50, e corre. Ele conta as horas. Os dias. A vida.

Uma lógica de Sherlock me serve de óculos. Ao caçar, na arte, significados e subtextos, detalhes essenciais, sinto como se enxergasse novamente. Intensifica-se por dentro, num átimo, o que outrora era frequente.

Não há como pagar uma cirurgia corretiva. Não agora. Quem sabe um dia, quando ocorrer a fusão de sonho e realidade…

 
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Publicado por em 24/03/2010 em Reflexões & Filosofia

 

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Catarro no cérebro

Você que tem sinusite sabe que, quando ela resolve atacar, você sente como se todo seu rosto estivesse entupido, as maçãs da face ficam com aquela sensação incômoda de pressão…

Pois é, chega fim de ano e eu tenho a mesma sensação, só que no cérebro. Depois de trezentos e tantos dias de recepção quase ininterrupta de informações (poucas das quais transformam-se em conhecimento), a cabeça começa a cansar, e parece que se cria um muco em torno do cérebro, impedindo que ele absorva mais alguma coisa. Aí preciso parar um pouco e assoar o crânio.

É curioso como essa sensação parece se intensificar a cada ano. Na minha vida, por exemplo, algumas novas fontes de informação se acrescentaram às demais em 2009: Twitter, o emprego (trabalhar com Comunicação dá nisso), curso de teatro… e isso vem se somar ao que já existia antes, causando um cansaço mental ainda maior do que nos anos anteriores. Nos últimos dias antes das férias do teatro, por exemplo, eu mal conseguia absorver o que via nas aulas, mal conseguia entrar em situação quando preciso, agia sempre quase que por impulso – ou melhor, apenas reagia aos impulsos externos.

A INFO deste mês publicou uma matéria bastante interessante sobre esse negócio de overdose de informação. Nela, o cientista da computação entrevistado Christian Barbosa faz uma afirmação que me fez pensar: “O ser humano não sabe usar bem seu tempo. Ele quer se colocar ocupado o tempo todo”.

Não é que faz sentido? Na minha vida, pelo menos, se aplica. De segunda a quarta, me ocupo cerca de 17h/dia – ou seja, da hora de acordar à hora de dormir eu simplesmente não paro. Os outros quatro dias são um pouco menos intensos, mas nem por isso leves ou relaxantes. Ação e reação non-stop. Uma hora a máquina enguiça e preciso de uma revisão.

…bem, acho que vou arrumar um tempo pra fazer nada em 2010 :)

 

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Uma nova estrada

A faísca foi gerada em agosto passado, quando voltei ao Conservatório Souza Lima, após cerca de 3 anos afastado, e comecei a ter aulas de Interpretação para Palco – algo como uma aula de teatro para cantores.  Essa faísca acendeu um pavio que foi-se queimando, com fulgor e intensidade crescentes, até atingir, há cerca de dois meses, a dinamite a que se prendia.

A explosão derrubou uma antiga parede de pedras e abriu um novo caminho, uma estrada que antes estava bloqueada e fora do meu campo de visão. Decidi então seguir essa nova estrada, chamada Teatro.

"Será que temos esse tempo pra perder? E quem quer saber? A vida é tão rara..." (Lenine - Paciência)

"Será que temos esse tempo pra perder? E quem quer saber? A vida é tão rara..." (Lenine - Paciência)

Após dois meses de preparo para a jornada, ontem, enfim, a comecei. Mas os primeiros passos sempre são os mais cautelosos, e geralmente precisam de apoio. Foi por isso que parei ali, naquela cabana à beira do que fora há pouco o muro de pedras. Conheci ali as duas primeiras guias, Joana e Helô, que parecem conhecer bem o caminho. Conheci também a caravana com a qual farei minha viagem, composta por pessoas de diversas idades (a mais nova tem 15 anos, e a mais velha, por volta de 50), vindas de diferentes lugares (desde Rio Claro, no interior de SP, até Portugal, passando por Maceió, AL, e outras tantas cidades), mas todas com mais ou menos as mesmas dúvidas, angústias e preocupações – especialmente no que concerne ao futuro profissional do ator. A maior parte dos viajantes, jà às voltas com seus 28, 30 anos, largou uma primeira carreira em benefício da nova jornada, e afirmava crer que nunca é tarde para mudar de rota em nome de um objetivo maior.

A estrada começa larga e asfaltada, mas como toda longa estrada, certamente haverá um ponto em que o asfalto dará lugar à terra batida, e depois à trilha rudimentar com mato alto nos batendo na cara. E haverá bifurcações, mostrando caminhos pelos quais talvez alguns resolvam seguir em vista da crescente dificuldade do terreno.

De qualquer modo, o grupo se mostrou bastante unido (tendo em vista que a maior parte das pessoas não se conhecia) e propenso a trilhar esse caminho ainda escuro e desconhecido para todos nós. E se algum de nós inclinar-se a mudar de trajeto numa bifurcação qualquer, espero que se lembre da convicção assustadoramente madura da nossa caçula portuguesa, que logo de cara afirmou: “Meus pais acham que eu estou meio obsessiva com a Arte [como profissão]. Bom, eu até gosto de outras coisas – gosto de Matemática, de Ciências. Mas paixão é uma só, e a minha é o Teatro.”

 
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Publicado por em 11/08/2009 em Teatro

 

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Rotina

O som da orquestra, do piano ou do violino solo me traz de volta ao mundo terreno. Após a prece e a higiene matinais, meus olhos tentam vencer o peso da noite passada, só para se depararem com outros, seus iguais, retribuindo-lhes o olhar sob sobrancelhas ruivas – ou loiras, não sei ao certo. O caloroso beijo materno me acorda enfim, e a vitamina de banana, acompanhada sempre por algum pão devidamente complementado, mantém-me sustentado por cerca de três horas (talvez um pouco menos).

Da Segno al CodaO caminho conta com trechos a pé, de metrô e trem, os últimos interligados por uma van eventualmente conduzida por alguém que desejaria ser protagonista de alguma continuação de Velozes e Furiosos. Chego ao trabalho, onde nove horas do dia serão de alguma forma consumidas – oito delas de olho em luzes que insistem em mudar de cor, como se movessem-se, a cada clique ou toque de uma tecla. Dedos na tela ainda não adiantam para mais do que sujá-la, ainda que tal realidade esteja em vias de mudança.

A bem-vinda pausa, quatro horas depois, é servida de carnes, cereais, salada, algum molho e certo toque de filosofia e cotidiano compartilhados entre eu e a grande amiga e colega na lida. Sempre com um olho no relógio, porque a vida de jornalista – dela – é dura e corrida.

Espelha-se o dia. Batem as dezessete e tomo o trem, a van, o metrô e aquele trajeto a pé. A higiene, o beijo materno, a refeição. Encontro alguma forma de gastar o tempo, ao menos enquanto não começa um curso nem surge um freela, até que Orfeu chame. A oração encerra o dia.

Dal segno al Coda.

 
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Publicado por em 30/07/2009 em Migalhas (Cotidiano)

 

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