A faísca foi gerada em agosto passado, quando voltei ao Conservatório Souza Lima, após cerca de 3 anos afastado, e comecei a ter aulas de Interpretação para Palco – algo como uma aula de teatro para cantores. Essa faísca acendeu um pavio que foi-se queimando, com fulgor e intensidade crescentes, até atingir, há cerca de dois meses, a dinamite a que se prendia.
A explosão derrubou uma antiga parede de pedras e abriu um novo caminho, uma estrada que antes estava bloqueada e fora do meu campo de visão. Decidi então seguir essa nova estrada, chamada Teatro.

"Será que temos esse tempo pra perder? E quem quer saber? A vida é tão rara..." (Lenine - Paciência)
Após dois meses de preparo para a jornada, ontem, enfim, a comecei. Mas os primeiros passos sempre são os mais cautelosos, e geralmente precisam de apoio. Foi por isso que parei ali, naquela cabana à beira do que fora há pouco o muro de pedras. Conheci ali as duas primeiras guias, Joana e Helô, que parecem conhecer bem o caminho. Conheci também a caravana com a qual farei minha viagem, composta por pessoas de diversas idades (a mais nova tem 15 anos, e a mais velha, por volta de 50), vindas de diferentes lugares (desde Rio Claro, no interior de SP, até Portugal, passando por Maceió, AL, e outras tantas cidades), mas todas com mais ou menos as mesmas dúvidas, angústias e preocupações – especialmente no que concerne ao futuro profissional do ator. A maior parte dos viajantes, jà às voltas com seus 28, 30 anos, largou uma primeira carreira em benefício da nova jornada, e afirmava crer que nunca é tarde para mudar de rota em nome de um objetivo maior.
A estrada começa larga e asfaltada, mas como toda longa estrada, certamente haverá um ponto em que o asfalto dará lugar à terra batida, e depois à trilha rudimentar com mato alto nos batendo na cara. E haverá bifurcações, mostrando caminhos pelos quais talvez alguns resolvam seguir em vista da crescente dificuldade do terreno.
De qualquer modo, o grupo se mostrou bastante unido (tendo em vista que a maior parte das pessoas não se conhecia) e propenso a trilhar esse caminho ainda escuro e desconhecido para todos nós. E se algum de nós inclinar-se a mudar de trajeto numa bifurcação qualquer, espero que se lembre da convicção assustadoramente madura da nossa caçula portuguesa, que logo de cara afirmou: “Meus pais acham que eu estou meio obsessiva com a Arte [como profissão]. Bom, eu até gosto de outras coisas – gosto de Matemática, de Ciências. Mas paixão é uma só, e a minha é o Teatro.”
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